Um Filme Sobre Janelas é selecionado para o Festival Super9Mobile

SINOPSE: Provocador, confuso, enganador. Um filme sobre janelas busca na irreverência e verborragia realizar um passeio caleidoscópico por referências estéticas e artísticas que permitam ampliar o sentido do que é visto na tela, do que é visto através de frames, formatos e caixas audiovisuais.

O filme foi feito para propositalmente aparentar ser amador, com acabamento e montagem “artesanais” e foi realizado integralmente em câmera de um telemóvel com poucos recursos tecnológicos. As imagens travam um diálogo ambíguo e incerto entre o mundo exterior, arquitetônico, urbano, enquanto as palavras são entremeadas em um jogo sonoro multifacetado.

Um filme sobre janelas traz um universo carregado de informações ora coesas, ora sem coerência, ora com seriedade, ora com humor, num vaivém de ideias e sugestões para discutir a validez de uma obra artística enquanto mensagem, ainda que amadora e tecnologicamente pouco sofisticada. O final do filme sinaliza para aquilo que está além e abaixo de tudo que conhecemos que faz da arte, Arte.


Provocative, confuse, misleading. A film about windows looks in the irreverence and verbiage a walking through kaleidoscopic tour for esthetical and artistical references that can amplify the sense about what is seen on screen, and what is seen through audio-visual frames, formats and boxes. The film has been made to appears be amateur, with an “artisanal” finishing and editing. All the images were captured by a cellular with low technological resources. The pictures create a ambiguous and uncertain dialogue between the external, urban, architectural world, while the words are released in a multifaced sound game.

A Film About Windows brings over informative universe, sometimes it is logical, sometimes not, sometimes serious, sometimes humorous, in an ups and downs of ideas and suggestions to discuss the validity of an artistical piece as message, even amateur and not technologically sophisticated. The film ending signalizes to what is beyond and under everything we know that makes art, Art.

Confira os outros filmes selecionados para o Super 9 Mobile Film Fest

Um Filme Sobre Janelas: um relato de uma jornada
Durante os meses que começaram minha caminhada com a disciplina de Novos Cinemas/Cinemas & Outras Artes, as reflexões e conexões possibilitadas pelas novas estéticas e movimentos abordados, ainda que superficialmente, foram essenciais para o meu amadurecimento enquanto pensador e, por que não, artista. Ainda assim, o processo de elaboração da ideia de um curta passou por altos e baixos, ideias descartadas, mudanças de rumo. Até chegar a ideia que seria absurda, mas se tornou a ideia até o fim: um filme sobre janelas.

Após assistir ao filme Windows, de Greenwald, via a simplicidade na história contada, aliada a um ponto forte que me encanta: o bom humor. Pensei em usar essa ideia como ponto de partida para a construção de meu próprio filme. Foram várias as elucubrações, viagens e ideias que me acompanhavam e me abandonavam ao longo dessa jornada.

Confesso que me senti um pouco intimidado pela qualidade técnica e estrutural dos projetos dos outros grupos. Surpreendentemente, esses outros grupos se mostraram muito gente boa ao incentivarem o desenvolvimento de meu projeto com a simplicidade com que ele foi pensado e se desenvolvia. O amadorismo seria proposital, uma marca peculiar.

O próprio professor Luís Nogueira também estimulou a seguir esse sentido e me incentivou a buscar uma linguagem e formato que estivessem em coerência com as minhas aspirações profissionais, isto é, o Guionismo. Pensei em escrever um guião, mas vi que poderia aproveitar a liberdade de criação artística para tornar o projeto ainda mais genuíno e conectado com minhas potencialidades.

Escrevi o poema em uma única mão. E por incrível que pareça, o texto resgatou consciente e inconscientemente as referências e discussões intelectuais adquiridas nos poucos encontros da disciplina, outras ao longo dos três meses de mestrado, e ainda outras de ao longo da vida. Ele expôs o que sei e o que não sei, ora sério, ora com irreverência. Foi uma jornada diversa, um liquidificador de questões e tendências em meio a muita e proposital incoerência.

Surpreendentemente, no período de montagem, novas ideias surgiram e percebi algo que esse filme continha, também inconscientemente: a pluralidade de vozes. Era uma ideia minha que captei do coletivo e da qual o coletivo passou a participar quando entrou em contato com o texto.

Em função de um resfriado, estava inseguro de gravar o texto, de modo que outros colegas se ofereceram. A gravação captou a expressão e espontaneidade de todos eles: a dificuldade e surpresas de entrar em contato com um texto propositalmente truncado. “Isso é pegadinha?”, Marcos Kontze disse. acabaram por revelar o potencial de conexão e diálogo coletivo da obra.

Dei a eles liberdade para caminharem pelos parágrafos do poema sem restrições. Cada um seguiu seu percurso. Cada um quis e usou de si mesmo para dar vida ao texto, sem ensaio, sem uma ideia anterior. E o resultado foi, acima de tudo, autêntico. Uma “tentativa de obra de videoarte” que cresceu com novas vozes, novos jeitos poéticos, ou não.


No final, compreendi que havia aberto janelas do inconsciente de mim mesmo, uma experiência surreal e dadaísta. Fui mergulhar no quadro negro de Malevich para trazer aquilo que sou, antes de tudo, e naquilo que o próprio cinema e as outras artes foram beber e ainda o são, na essência, em seu ponto de partida.
Antes de tudo, tudo é poesia.

Um Filme Sobre Janelas: um raio-x conceitual
O texto passeia por diversas tendências artísticas ao longo de seus parágrafos e frases. Algumas estão explícitas, outras não. O parágrafo inicial é uma introdução com metáforas bastante simples e até previsíveis, um tanto kitsch, lírico. Há uma busca pela definição de um conceito: as janelas que se abrem, se abrem para que o tempo corra como o vento e escreva a própria vida. Pessoas são como paredes, que erguem e dão sentido à cidade, assim como as próprias paredes.

O abstracionismo é típico do surrealismo, corrente no qual o texto mergulha, visto que o resultado dele mesmo veio de modo espontâneo e inconsciente, como se o autor resgatasse um monte de “tranqueiras” de dentro da mente, mas com um objetivo e mensagem específicos, que convergem.

Dois autores brasileiros servem como referência para a construção da linguagem do poema: João Cabral de Melo Neto – nordestino, pernambucano, poeta, que possuía esmero na construção de poemas e refutava inspiração; escreveu Morte e Vida Severina, um de seus maiores destaques, e foi conhecido como Poeta Engenheiro. O segundo, o cineasta Jorge Furtado, também aparece como uma influência no desenvolvimento da linguagem da obra, especialmente com Ilha das Flores, em que ele constantemente rememora informações de sentenças anteriores e as define nas seguintes.

Ainda em termos estilísticos, o texto, de cunho experimental, bebe na Poesia Concreta ao subverter regras gramaticais constantemente, sem que, com isso, tenha algum propósito de gerar sonoridade rítmica, embelezamento e conforto. Não há exatamente versos, como na poesia convencional, mas longas e curtas sentenças, como se flertasse constantemente com a crônica.

Essa escolha pode facilmente gerar a composição de travas-línguas, devido ao caráter repetitivo dos fonemas, embora, neste caso, eles sejam gerados, basicamente, com o propósito único de divertimento, aquecimento e articulação vocal. No texto, por sua vez, o caráter truncado provoca uma desorientação completa em quem está a ouvir e em quem está a falar, com vistas ao efeito estético e ao prosseguimento de uma proposta poética.

O regionalismo reaparece no aportuguesamento de termos estrangeiros, no intuito de reforçar o caráter anárquico natural do texto, que, segundo o teórico Andrew Horton (1991), constitui-se um estilo “pré-edipiano”, avesso às regras de convívio social e de responsabilidade. Ser contrário a tudo que é imposto com o objetivo de se criar algo é condição sine qua non para as artes contemporâneas e o experimentalismo audiovisual propicia a liberdade necessária para lançar mão de novas linguagens.

O dadaísmo, é evidente, é a corrente artística da qual o texto vai buscar de modo mais gritante e o explicita em diversos momentos. Desse imenso cesto ainda fazem parte a Cultura Pop, também aportuguesada, e referências acadêmicas. As ferramentas típicas da engenharia cinematográfica são decompostas. A linguagem técnica é descaracterizada, regionalizada (“pitoco” é uma expressão nordestina que designa botão, alavanca, qualquer dispositivo gerado para acionar um comando).

Mas no final das contas, a obra tenta, ao menos tenta, questionar o valor da arte, especialmente cinematográfica, tão cara e técnica, enquanto mensagem. É aquela velha rivalidade FORMA x CONTEÚDO, colocada como uma discussão: é possível fazer cinema com poucos recursos técnicos, ou mesmo intelectuais, e ainda assim atingir o objetivo da arte, que é de comunicar?

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