Contos Mágicos de Dublin: Os sinais de Portobello

Julia finalmente conseguiu marcar um “date” com um “crush” irlandês em um dos lugares mais charmosos de Dublin, Portobello. Ela só havia esquecido de um detalhe muito importante.

Portobello, Dublin. Foto: Fausto Muniz

10%.

Era apenas isso que Julia dispunha na bateria de seu celular para as próximas horas. E não haveria tempo suficiente para carregar o aparelho. Nem local. Ela até que tinha uma bateria extra, um power battery, vazia. Ela nunca se lembrava de carregar, e um power battery sem estar carregado valeria o mesmo que uma moeda de um centavo. A aula de inglês havia acabado e o “date” estava próximo. Não daria tempo de ir em casa carregar o celular um pouco. Teria que confiar que tinha bateria suficiente para uma hora a mais de espera. O crush chegaria em pouco mais de 45 minutos.

O lugar era perfeito para mais uma tentativa romântica de aprendizado linguístico: Portobello. Ela uniria a possibilidade de começar, do zero, mais uma história de amor e ainda treinar seu inglês, meio capenga ainda. Ela estava no nível pré-intermediário, dentro de uma sala de aula abarrotada de brasileiros que esperavam ansiosamente o professor virar as costas para, enfim, poder falar em português.

A ansiedade era grande. Estava em Dublin há dois meses e não havia marcado nada com ninguém pelo app ainda. Passeou, farrou, quase gastou metade dos três mil euros de que dispunha em conta. Quando um dia olhou a conta do banco no celular, quase teve um treco, e teve que segurar a onda para ainda ter dinheiro para pagar o aluguel do flat. Dividia o doce lar com mais 11 brasileiros.

Foi fazer cleaner, pra lá e pra cá com esfregão, “hoovando”, “mopando”, como diziam os brasileiros, que aportuguesavam tudo. Sentia-se orgulhosa de ter o vocabulário estrangeiro ampliado apenas com o trabalho de faxineira. Fez muitas amizades no serviço. 98% delas, brasileiras. Estava craque, se não no inglês, pelo menos nos sotaques variados do país que se misturavam naquelas longas horas de faxina e curtíssimos minutos de intervalo.

“Baixa o Tinder, Julia! Marca com Irish! Assim tu fala inglês e ainda faz sexo!”

Esse foi o conselho que ela ouviu uma vez e assim seguiu à risca, depois de alguma resistência moral. Essa resistência foi por água abaixo quando ela, na sexta-feira, dia de teste na escola de inglês, recebeu a notícia da professora de que ela teria de permanecer no mesmo nível por mais um bom tempo. Foi um choque. Mal sabendo o verbo To Be, baixou o Tinder na mesma hora e curtiu metade de Dublin em questão de minutos. Conversou com deus e o mundo no aplicativo, até que, finalmente, conseguiu marcar um date com um irlandês. Ele era a síntese do que encantava muitas brasileiras: loiro, olhos azuis, inglês nativo.

“Lacrei! É meu! E fazendo as contas de sua data e hora de nascimento, ainda é meu paraíso astral!”

Ela havia consultado sua melhor amiga, uma quase-astróloga, que vivia fuçando sites de signos e dizia-se esclarecida no conhecimento astrológico. A amiga fez o mapa astral de Julia e contou, com toda riqueza e precisão de detalhes, que “havia uma grande chance de os dois darem certo, mas ela deveria estar atenta aos sinais”.

“Miiigaaa… você é demais! Como você adivinhou?”

“Fique atenta aos sinais, no dia do date. Você é de aquários. Tem que prestar atenção aos símbolos pra evitar furadas”.

“Certo!”

Portobello, Dublin. Foto: Fausto Muniz

No grande dia, Ju chegou para a professora, da Índia, e perguntou como ela falava o nome dele. A indiana, meio com sotaque esquisito, soltou um esguicho que Julia não entendeu direito, mas confiou firme de que seria o jeito correto de falar o nome de seu futuro affair. Julia então ficou repetindo mentalmente aquele nome. Sabia que estava treinando o inglês e, ao mesmo tempo, memorizando o nome bizarro daquele que poderia ser o homem da sua vida e, melhor ainda, o dono do passaporte europeu.

Sua cabeça voava longe. Já via a si mesma falando inglês fluentemente, posando para uma foto de família com dois filhos, cada um em uma das coxas, um marido três vezes mais alto que ela, cabelo loiro caindo nos olhos, pinto rosado, e um passaporte europeu com o qual poderia trabalhar 60 horas por semana, sem precisar ir para escola. Daria banana para a imigração!

Ao voltar de seu mundo cor-de-rosa-choque, Julia ligou a tela do celular de novo e viu: 6%. Ainda faltavam 20 minutos para que o ansiosíssimo encontro acontecesse. Tinha que se controlar: estava no local certo, Portobello, uma região de sonhos, cercada de patos, cisnes que pareciam sair de um quadro de algum artista famoso, pontes encantadas.

Jovens bebiam e conversavam civilizadamente, à beira do canal. Alguns tocavam violão, outros apenas comiam, num silêncio que poucas vezes Julia havia percebido na sua vida. “Como eles podem conversar e não fazer barulho?”. Pois é, a conversa daqueles que, ao menos, pareciam europeus, era quieta, não emitiam ruídos de sua boca, não mexiam as sobrancelhas, não mexiam os braços e permaneciam na mesma posição por longas horas. Eram muito civilizados!

Canal de Portobello. Foto: Fausto Muniz

“Meu deus, que saudade do pagode na praia! Socorro! ‘Calma Julia, você está a fim de um intercâmbio cultural. Veja! Esse é o lugar mais lindo e charmoso que você já viu na vida! Intercâmbio cultural, ok? Brasil, Brasil. Irlanda, Irlanda. Comporte-se!’” Ela pensava, tentando acalmar os nervos para não olhar o celular mais uma vez para ver quantos minutos faltavam. “Como eu fui irresponsável, meu deus! O date que vai mudar a minha vida prestes a chegar e eu com 5% de bateria! Eu não estou pronta para viver a maior história de amor de toda a minha existência! Socorro!”

E uma fatídica notificação apareceu na tela do celular. Era ele.

“Sorry, I’ll b l8 a fw min. St8 in Pbello ok?”*

“Que fofinho!!!” Bem ao lado da mensagem, o aviso da bateria: 3%. Seu coração apertou ainda mais e uma interrogação sobrevoou sua cabeça quando o display escureceu. Sobrancelha tensa, Julia ligou a tela novamente.

“Ué, o que é isso? Um código secreto? Símbolos… A gente mal começou e ele já tá querendo jogar comigo?”

O que eram aquelas letras misturadas com números que não faziam sentido nenhum? Julia olhou para um lado, olhou para o outro. A voz da amiga quase formada em astrologia soou em sua cabeça como o Mestre dos Magos enviando um áudio pelo WhatsApp direto da Caverna do Dragão. “Fique atenta aos sinais…”.

Começou a chover.

Julia correu para a parada de ônibus. No letreiro eletrônico de um dos coletivos, viu o número da linha que a deixaria na frente de casa.

“Sinais!!!”

Tirou do bolso o Student Leap Card, o cartão de estudante da Irlanda, e se enfiou no ônibus. Subiu para as cadeiras de cima e se sentou. Foi logo arrancando o celular do bolso. Mexeu nele: nada, tela escura, aqui jaz a bateria.

“Era o sinal”.

Na outra parada, um grupo de quatro brasileiros subiu pela escadaria e se sentou nas últimas cadeiras do ônibus. Dois deles começaram a batucar, de levinho. Os outros dois cantavam, bem baixinho. Julia, lá na frente, escutava a batucada. Quietinha, na dela, batia os dedinhos em uma das pernas enquanto balançava a cabeça de um canto para o outro.

Depois, começou a assoviar.

*Sorry, I will be late a few minutes. Stay in Portobello, ok? — Desculpe, vou me atrasar alguns minutos. Fique em Portobello, ok?

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