Contos Mágicos de Dublin: O rickshaw do Temple Bar

O jovem irlandês Craig adora tomar todas com os amigos, mas decidiu sair de seu bando e trabalhar como motorista. Ele tem apenas um dia sem álcool no corpo, mas muita ansiedade para controlar.


Craig era irlandês e havia acabado de completar 18 anos. Sabia que as coisas não seriam como antes. Não poderia mais ficar à toa, nas ruas, com seu bando, fumando baseado e saindo por aí, fazendo arruaça. Poder até que ele podia. Mas sua mãe chegou um dia e o jogou contra a parede: “ou trabalha, ou não bebe mais”! A bebida falou mais alto e ele até queria ganhar uns trocados, seria bacana. Mas Craig não sabia fazer nada. Mal sabia lavar pratos.

Cresceu mais na rua do que em casa ou na escola. Conhecia Dublin na palma da mão. E com a palma da mão aprontava coisa que sua mãe não fazia ideia. Sua mammy foi esperta: em vez de oferecer a casa em troca de trabalho, porque sabia que o filho poderia ficar nas ruas sem problema, ofereceu a bebida. Tiro e queda.

Numas dessas noites incontáveis, ele, com os seus mates, sentado em pleno Temple Bar, o cartão-postal da cidade, parou por alguns instantes e teve um troço que o pessoal costuma chamar de epifania. Teve isso quando olhou para uns colegas que dirigiam uma espécie de carroça motorizada, os rickshaws. O motorista pedalava uma bicicleta enquanto conduzia os passageiros sentados numa carroceria, a maioria era a garotada baladeira e os turistas.

Fui rickshaw por algum tempo. No meu primeiro dia, dei carona (lift) para três rapazes bêbados, sendo que um deles não cabia. Ele então teve que descer e empurrar a carroça.

Craig chegou para um dos ciclistas e perguntou:

“E aí mano? Como faz pra dirigir isso aí?”

“Sorry?”

“Como é que eu faço pra dirigir? Trabalhar?”

“Sorry?”

“Ah, desculpa aí, foi mal aí…”

“Sorry? I can’t understand. ‘Espike Englishi véri lôu, bâti ai uiu cóu mai frendi to talki to iú!’ Ei Aldemir, olha o mano aqui é “Irish”. Troca umas ideias com ele que eu não entendo nada”.

O outro rapaz falou.

“Qual a história, mano?”

“Ei man, quero dirigir esse bagulho aí. Como eu faço?”

“Ah, de boas. Eu alugo os rickshaw, mas sabe da Garda né?”

“‘Qualé’ mano, sou daqui!”

Trato feito, no dia seguinte, Craig já estava com o rickshaw pelas ruas do Temple Bar e outras. No Temple Bar, ele conseguia mais trocados, mas outras regiões também rendiam algumas gorjetas, como a rua da Diceys e as imediações da George Street. Todo dia tinha fuzuê nos pubs de Dublin, mas quinta, sexta, sábado e dias de jogo e de show, a bagunça era ainda maior.

E o dim-dim, as chamadas “tips”, era maior também. Quanto mais bêbados, mais cash no bolso. Tinha também chance de levar calote e não ter com quem reclamar. O trabalho era meio doido e tinha que ficar de olho nos policiais, que poderiam encher o saco, fazer revista em busca de drogas. Ao menor sinal da Garda, a ordem era pegar o beco, sair de cena, pra evitar furadas.

No primeiro dia de trabalho, Craig chegou ao Temple Bar e esperou.

– Hey guys, lift!!!

Lift era o nome da “carona”. Craig gritava para um lado, para o outro. Tinha que disputar com a concorrência, com gente na praça há mais tempo e dentro das manhas do negócio. As horas passavam, nenhum centavo no bolso.

Craig parou num canto, relaxou, deu um break no trampo, fumou. Por trás, ele ouviu:

“Olha ele aê! Olha o Craig aê!”

Sua turma estava lá, com seus cabelos raspados no mesmo barbeiro, corte de soldado, mostrando o cocuruto. Vestiam as mesmas roupas, moletons e calças cinzas com um selo ADIDAS brilhando em suas laterais e sapatos da Nike. Andavam bem vestidos para mais uma noite vivendo a vida adoidado. Um deles mostrou uma garrafa de Whisky Jameson dentro de um casaco e logo escondeu.

Eles apenas trocaram acenos, algumas palavras soltas, e seguiram pela rua. Sentado, Craig permaneceu olhando seus “parças” indo cada vez mais longe, enquanto a fumaça saía pela sua boca e pelas narinas. Sua garganta estava seca.

O tédio de não fazer nada, de não ter nada de emocionante para preencher suas horas naquela noite de sexta. Tinha que fazer grana o quanto antes, ou não pagaria o aluguel da bicicleta. Sabia que poderia não apenas oferecer caronas: as drogas circulavam e ele poderia faturar alto, bem alto, contanto que fosse discreto e esperto.

Queria sair dali. Os garotos ainda estavam à vista… seria fácil alcançá-los em instantes. Sem grana chegando, o jeito era curtir a noite, aproveitar a vida, beber, beber, beber…

Sentia a boca seca. Olhou para o celular: estava há mais de 24 horas sem uma gota de álcool na língua. Era estranho, tedioso. O mundo já não girava como antes, sóbrio por tanto tempo. Um dia sem beber seria um dia preto e branco, sem graça. Era seu primeiro dia como trabalhador. Sentia-se deslocado do mundo. Pensava que aquilo não era pra ele.

Craig jogou a bituca do cigarro no chão, saiu da carroça e voltou para o assento da bicicleta. Ligou o motor e acelerou. Saiu do Temple Bar e foi em direção a tumultuada Dame Street, uma artéria no centro de Dublin que conectava a região turística da cidade ao Trinity College, a mais tradicional universidade da Irlanda. Craig acelerou o rickshaw em meio a um caótico trânsito infestado de taxistas e bêbados, loucos para chegar em casa, depois de horas regadas a infindáveis litros de chopes, as “pints”.

Craig acelerou mais. O vento forte no rosto e a alta velocidade agiam como um orgasmo. Não poderia correr muito mais que aquilo ali. Já estava tão veloz que não teria mais tempo para frear com calma. Quando o veículo se aproximou do semáforo do cruzamento da Dame Street com a tumultuada George Street, o sinal fechou e não deu tempo de parar.

O rickshaw furou a luz vermelha. Da Georges St saiu uma viatura da Garda que disparou atrás dele. Craig foi desviando dos pedestres que corriam loucos pela rua, enquanto desacelerava o motor. Os gardas pediram sua identidade. Ele entregou, escondendo os olhos vermelhos do baseado. Sua voz estava meio lerda. Sua postura estava firme. Seus dedos, firmes ao volante. Levou uma advertência.

Sentiu vontade de reagir, provocar, soltar uma graça em cima dos caras, sair correndo, como sempre fez. Sem a tontura do álcool, sentia-se calmo.

O tédio havia voltado. Não queria estar calmo, mas estava.

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