Contos Mágicos de Dublin: As cores secretas do monumento Spire.

O que fazer quando a chuva não chove apenas por fora, mas por dentro de você também? A chuva não parava de cair na alma de Clara e ela deixou de ver as cores do mundo ao seu redor. O empurrãozinho para sair dessa deprê veio de onde ela menos esperava.

Monumento Spire, na área central de Dublin. Foto: Fausto Muniz

As cores do tempo mudavam as cores da alma de Clara. Tudo o que havia cor lhe tocava. Tudo lhe tocava, especialmente as cores e o clima do mundo. Clara tinha o que as pessoas diziam ser uma espécie de sensibilidade ao clima. O tempo mudava, ela mudava. Dias de sol, dias de alegria e energia, de força de vontade para trabalhar, estudar, ver as pessoas e os amigos.

Dias de chuva, o total oposto. Ligava o laptop e só sairia da cama para comer e ir ao banheiro. Trabalhar então, era uma tortura. O céu fechava, seus olhos também se fechavam, sua vida se fechava e ela não queria fazer nada mais.

A saudade apertava o peito. Saudade era por dia, independente de sol ou de chuva. Saudade era algo que lhe sugava a energia e lhe mantinha na cama, longe de tudo, longe do contato com os outros. Clara faltava as aulas, sumia dos locais, não queria saber de ninguém. Há poucos meses em Dublin, uma sementezinha de arrependimento germinava dentro dela.

Uma voz a impedia de tomar decisões. Vivia numa paralisia constante. Cada passo dado era antecedido por essa vozinha implicante… “não faça, não faça, não faça”.

Era mais um dia de aula. Clara havia passado pelo monumento do Spire, no eixo central de Dublin: uma agulha gigante de aço erguida entre dezembro de 2002 e janeiro 2003 e cuja construção foi rodeada de controvérsia e euforia. Clara cruzava aquela agulha diariamente e sempre se perguntava o porquê de aquilo existir.

Não achava bonito, mas também não achava feio, embora sentisse que alguma coisa se escondesse por lá. Não achava nada, assim como outras coisas da sua vida. Aos poucos, tudo era nada e vazio, e ela não sabia ao certo a razão. Nada lhe tocava em nada.

Ao chegar à aula, Clara seguiu calada, do início até o fim. Não era muito diferente dos outros estudantes, que se viam obrigados a frequentar os cursos de inglês apenas para seguir uma obrigação imposta pelo governo irlandês. Caso não mantivessem uma frequência adequada, a chamada attendance, poderiam enfrentar problemas com o serviço de imigração do país e até perder o direito de permanência.

Naquele dia, Clara estava ainda mais quieta. Algo trancava sua voz. Sentia uma indisposição tremenda de fazer qualquer coisa. Entregou-se ao silêncio e à inércia. Encostou-se num canto e ali ficou, durante as horas que viriam. Sabia que seriam quase quatro horas apenas sentada em uma cadeira, com o livro aberto.

Susan era sua professora, nos seus trinta e poucos anos, com cabelos curtos e coloridos e um visual descolado. Era alegre e bem-disposta e fazia de tudo para tornar aquelas quatro horas algo que fizesse diferença naquelas vidas. Existia, no entanto, uma espécie de parede invisível que dificultava a conexão entre ela e Clara. Um tipo complicado de barreira.

Os olhos de Clara estavam perdidos no horizonte. Até sua audição estava patinando ao longe, como num vácuo. No meio desse vácuo, um barulho insistente e repetitivo começou a assoprar, a catucar seu ouvido. O barulho permaneceu, continuou, bateu sem parar. Até que…

– CLARA!!!

Ela se sacudiu, como se acabasse de sair de um túnel.

– Ah, desculpe Susan.

– Você… você está bem?

– Saí um pouco daqui…

– Nós vimos.

Seguiu-se um silêncio, algumas risadinhas, e Susan continuou.

– Tem dias que a gente não quer falar nada, né? Eu entendo vocês. Sei do cansaço que é vir do trabalho e ter que estar aqui na sala de aula todos os dias. É barra, é difícil, mas… enfim… é isso… vamos seguir com o livro?

– Seguir com o livro? — Clara respondeu.

– Sim, Clara.

– Eu não sei se eu quero seguir com o livro. Eu não quero seguir com o livro.

Clara calou-se. Os colegas que dormiam, acordaram.

– Mas nós precisamos continuar…

– Precisamos, mesmo? Hoje? Igual a ontem e ontem e anteontem?

Susan respirou fundo.

– Querida, eu entendo…

O burburinho tomou conta.

– São cinco horas aqui, dentro desse prédio, fazendo praticamente as mesmas coisas todos os dias. São cinco horas falando de gramática, tentando corrigir nosso jeito de falar quando nem mesmo os nativos o fazem. Não, não é fácil, é barra mesmo estar aqui fazendo isso todos os dias. É barra ter que passar por isso, mas eu acredito que é possível fazer diferente. É possível fazer melhor. Eu sei que não é fácil, mas, me desculpe, é o mínimo. A gente paga caro para estudar aqui e vemos o nosso dinheiro indo para o ralo. Estou cansada… estou cansada.

O silêncio tomou conta da sala e foi ainda mais pesado até o seu término.

Clara esperou os alunos saírem da sala e se dirigiu a Susan.

– Susan, me desculpe por hoje…

– Tudo bem, querida. Você não tem que pedir desculpa por nada.

– Eu tenho sim…

– Está passado. Relaxe a cuca. Take it easy.

Susan deu as costas e caminhou para a porta da sala. E então parou e tornou para Clara.

– Clara, posso te fazer uma pergunta?

Ela assentiu.

– Por que você usa apenas preto?

Clara não entendeu.

– Eu… uso preto? Nossa, eu não havia percebido isso. Eu não havia percebido que usava preto todos os dias. Bem, acho que eu gosto de preto.

– Tem certeza?

Susan deu uma risadinha e saiu da sala. Clara ficou pensativa, como se soubesse a resposta para aquela pergunta. No caminho de casa, as palavras da professora continuaram ressoando em sua cabeça, como se o discurso que ela havia dito para Susan fosse uma verdade para ela mesma.

É possível fazer melhor.

Chegando à OConnell Street, viu ao longe o monumento Spire. Num segundo piscar de olhos, percebeu que havia algo diferente nele. Não era mais o mesmo, ainda que de modo sutil.

Clara se aproximou aos poucos, com um misto de excitação e medo. E viu: o Spire já não era tão cinza. O clima da cidade era o mesmo de todos os dias, mas o monumento de aço havia mudado um pouco. Novas cores, com tons diferentes, haviam se revelado e ela era capaz de enxergá-las. Aos poucos, as coisas não eram tão monocromáticas quanto antes.

Um calor subiu pelo seu pescoço, ainda que o vento frio soprasse por todos os lados.

E um leve sorriso começou a se desenhar nos lábios de Clara.

Spire (ou agulha, segundo os brasileiros). Foto: Fausto Muniz

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