Contos mágicos de Dublin: A corredora da Grafton Street

Chegar ao trabalho atrasado pode não pegar bem. E é por isso que Alice corre, feito louca, por uma das ruas mais caras e musicais de Dublin. Até que as coisas não saem como ela esperava.


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Alice corria. Corria para chegar ao trabalho, estava em cima da hora. Teria pouco mais de 20 minutos para estar no “trampo” no tempo certo. No peito, aquela adrenalina e angústia de quem está fazendo alguma coisa errada. De quem está com algo incerto, algo que denuncia sua irresponsabilidade. “Você nunca vai crescer, viu? Olha só, você, uma já formada, pós-graduada, com 30 anos em cima das costas e ainda se prestando a correr para chegar a tempo no trabalho, sem uma razão importante?” Responderia sim a todas essas perguntas, para ela mesma.

Alice estava na Grafton Street, o boulevard mais caro de Dublin, com grifes mundiais explodindo tendências, ditando elegâncias. Algumas vezes, Alice parou para entrar em algumas lojas daquela avenida lotada de músicos de todos os lugares do mundo, ainda que a maioria deles cantassem apenas melancólicas canções dos Estados Unidos. Essas canções geravam mais receita, mais moedinhas caindo em seus bolsos.

A Grafton Street era harmoniosa e caótica. O caos funcionava direitinho naquele lugar, que comportava não apenas músicos, mas outros artistas. Lojas de conveniência e fast food também disputavam os cartões de estudantes e de turistas que subiam e desciam por seus valiosos metros quadrados. Alice já havia deixado de ser uma simples intercambista estudante de inglês naquela Dublin cosmopolita, com infinitos idiomas e formas de falar um simples Oi.

Alice já era uma estudante de mestrado. Um mestrado que estava sendo pago a custo de um empréstimo que ela se desdobrava para conseguir arcar. Fugia como uma doida dos atrasos financeiros. Trabalhava como assistente administrativa. Área burocrática. Estudava business e sentia-se um pouco mais útil. Sentia que poderia aplicar alguma coisa da sala de aula no novo emprego, longe dos aspiradores e esfregões quando ainda era uma simples aluna de Inglês.

Naquele dia, o salto alto não ajudava. O toc-toc-toc do bico fino estava ainda mais irritante. Ela queria correr, mas a agulha no seu tornozelo a impedia. Como ela sentia falta do simples tênis com o qual ela poderia correr livremente para chegar à sala de aula sem maiores problemas e ainda com um sorriso no rosto. Ela cansou do curso de inglês, queria dar um salto maior. Correu muito para isso.

Trabalhou como faxineira por longos e intermináveis meses. Quis mudar de emprego, mas ficou apenas no querer mesmo. E foi o sorrisinho do aspirador de pó que lhe possibilitou pagar o aluguel de seu flat, dividido com mais 7 mulheres. Nesse metro quadrado, lágrimas, fofocas e intrigas se revezavam, acendiam e se apagavam. No final, tudo mais ou menos passava, e elas ficavam de bem. E assim foi levando, por longos dois anos, até chegar ali, na Grafton Street, com o toc-toc de seu sapato, comprado em uma loja específica, não mais na Penneys, a C&A da Irlanda.

“Toc-toc-toc…” Tinha que correr, tinha que correr.

Foi quando ouviu um “croc”. A agulha elegante quebrou. Na brusca virada do pé, seu tornozelo também entortou. O relógio era impiedoso e em momento algum parou.

Alice teve que parar. Parou porque sentiu uma dor imensa no tornozelo. Uma voz lhe falou perto, em tom prestativo:

“Você está bem?”

Era uma senhorinha muito simpática, com uma armação vermelha que chegava à ponta do nariz, mas não lhe deixava com ares de ultrapassada. Alice respondeu que sim, agradeceu, e foi cambaleando até chegar à parada para o Luas, o trem que cortava a cidade. No primeiro segundo que ela se sentou, já foi abrir a tela de celular.

Correu para conseguir escrever a mensagem. Correu para conseguir explicar o que havia acontecido. Seus dedos tremiam e ela mal conseguia digitar. “Estou a caminho, aconteceu um acidente”. Ela decidiu ligar, com a voz embargada, assustada e, ainda, angustiada. Tentou se explicar. Tentou se fazer entendida, mas o nervosismo agia em sua garganta como se houvesse areia na glote e qualquer inglês que ela havia aprendido na vida ficou entalado.

Ouviu apenas um OK.

“Ok?”, Alice respondeu.

“Ok”. A chamada encerrou.

Apenas um Ok? Depois de tudo o que eu passei? A gerente era uma chata mesmo.

Alice se levantou e foi cambaleando, descalça, fazendo o caminho de volta. Recebeu alguns olhares de apoio. Respondeu com um leve aceno na cabeça. Não conseguia correr. Não tinha forças para correr e continuava se sentindo irresponsável. Ainda teria que chegar em casa e colocar gelo naquele tornozelo para evitar que aquela enorme bola na sua articulação crescesse.

Até que ela parou em frente a um fast food. Tinha fome. Decidiu entrar descalça mesmo. Pediu um sanduíche de frango empanado, o popular “chicken filé”.

E comeu o sanduíche, em pé. À sua frente, tocava um guitarrista. Ela sorriu, jogou uma moeda, e seguiu cambaleando, desengonçada, lambendo os dedos melados de molho apimentado, pela chique e popular Grafton Street.

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