Contos Mágicos de Dublin: Os pássaros de Malahide

Os moradores de Malahide não esperavam que os pássaros voltariam tão cedo ao vilarejo. Apenas Sean, um misterioso pescador, parece entender o que eles pretendem.

Malahide, no litoral de Dublin. Foto: Fausto Muniz

A

bola de fogo de um sol inabalável explodia no céu de Malahide, um pedaço de Dublin que pertencia a família dos Talbot desde os anos de 1185. Esse imenso círculo de luz mantinha a paz nos arredores do castelo medieval de Malahide. Por fora desse monumento, o verde-vivo do seu gramado bem nutrido harmonizava com o azul puro de um céu sem nuvens, orgânico, virgem. Próximo a essas propriedades, um litoral lotado de gaivotas.

O vento frio soprava em toda ilha esmeralda da Irlanda, hora com doçura, hora com fúria e arrogância. O vento era uma espécie de mensageiro dos tempos ensolarados ou chuvosos. Naquele dia, um grupo de pescadores caminhava para mais um dia de trabalho, no mar lento e preguiçoso de Malahide.

Entre eles, o ruivo, barbudo, sisudo, baixinho e cinquentão Sean, que segurava sua vara de pescar pela areia fofa e fria da praia. Ele olhava seus pés, que pisavam naquele solo acinzentado e úmido. Uma nuvem sobrevoava seu espírito. Uma nuvem também cinzenta. Enquanto os outros cantarolavam ou faziam graça, ele seguia calado, um pouco fora de seu habitual.

“Que é que foi, Sean? Problema em casa?”

“Tá com doença?”

Ele não respondia, apenas balançava a cabeça negativamente. Caminhava, seguindo o fluxo do grupo, como uma sombra, emudecido, com a boca trancada.

Até que algo chamou sua atenção.

“Qual é, Sean? Qual é o problema?”, um de seus companheiros gritou, ao vê-lo parar.

O pescador ergueu suas grossas sobrancelhas, em formato de circunflexo, até que elas formassem uma montanha na testa. Sua boca ficou entreaberta, como se ele houvesse parado de respirar. Seus olhos fitavam algum ponto ao longe, no horizonte, vagos.

“Que é que houve, man? Vai ficar aí parado?”

“Esse aí deve estar com algum problema na cabeça…”

“Família ele já não tem. Acho que o problema é esse…”

“Sei não… Man, vamos ter uma pint mais tarde…”

“O vento”, Sean interrompeu.

“O que é que tem com o vento?”

“É hoje”.

“É hoje que vamos sair e trabalhar como sempre, man…”

“Não… é hoje. Eles voltam hoje…”

Ele levantou o braço, apontando o dedo indicador. Os outros pescadores seguiram a direção daquele dedo maltratado pelo serviço braçal da pesca. Na linha fina do horizonte, um grupo de pássaros crescia. Aos poucos, esse grupo foi se avolumando, até formar uma nuvem escura, densa. Uma nuvem de pássaros brancos que se debatiam, mas mantinham a posição de voo, pouco acima da linha do mar.

Os outros pescadores paralisaram. Ninguém movia um dedo. A nuvem se adensava. E então, um barulho seco de algo caindo no chão tirou o grupo da inércia. Eles olharam para de onde veio aquele som: a vara de Sean, estatelada em um rochedo. Ao longe, o pescador já corria.

O grupo abandonou os equipamentos de pesca e seguiu o pescador sisudo, que nesse momento fugia da praia e se aproximava das imediações do castelo de Malahide.

“Mas o que é que esse doido vai fazer?”

“Ele não pode entrar ali!”

“Mas ele vai entrar!!”

Um horizonte azul e muitas dúvidas. Praia de Malahide, Dublin. Foto: Fausto Muniz

A nuvem de pássaros cresceu ainda mais, até encobrir a vila de pescadores, o comércio e as imediações do povoado de Malahide. O povo saiu de casa e logo voltou. Todos fecharam as portas. A cidade entrou em caos. Crianças, adultos e velhos correram em busca de abrigo. Na Igreja do Sagrado Coração, muitos se refugiaram e começaram a rezar compulsivamente. Padre, freiras, beatas e fiéis acenderam velas em desespero. Terços foram distribuídos para que todos se reunissem em uma imensa corrente de oração e súplicas.

“LIVRAI-NOS DO MAL! LIVRAI-NOS DO MAL! LIVRAI-NOS DO MAL!”

“SÃO SILVESTRE… ROGAI POR NÓS!”

“SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS… ROGAI POR NÓS!”

O vento começou a soprar com mais força, derrubando o que vinha pela frente. Em questão de segundos, as ruas de Malahide viraram ruas de uma cidade fantasma, sem única alma viva pelas suas calçadas.

O grupo de pescadores se espalhou pelos quatro cantos. Alguns conseguiram voltar para suas casas. Alguns encontraram refúgio nos últimos estabelecimentos de portas abertas.

Sean continuou correndo para as imediações do castelo de Malahide, o único espaço nas redondezas que não se encobriu pela densa nuvem de pássaros. O local permaneceu iluminado, com a mesma vida e cor de todos os dias, intocado.

De frente para o portão do castelo, Sean parou, ofegante, o coração saindo pela boca. Ele podia ouvir as asas dos pássaros batendo enlouquecidamente atrás dele. Eram milhares de asas, numa sonoridade parecida com a de um galinheiro sendo invadido por um bando de raposas famintas. A porta se abriu, sem que o pescador movesse um dedo.

Sean entrou no castelo. Entrou devagar, um passo de cada vez.

No alto, a nuvem de pássaros esvaziou. Os bichos desceram dos céus, em fileira, e adentraram, frenéticos, no castelo de Malahide.

Ao som de um barulho de ferrugem velha, o portão se fechou.

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