Contos Mágicos de Dublin: O Leprechaun do Parque Stephen’s Green

O duende Patrick adora a solidão, odeia conversar, e não pensa duas vezes em usar sua mágica para desaparecer de perto dos humanos. No único dia do ano em que fica em casa, ele decide quebrar o jejum e soltar o verbo. Mas como e com quem?

Foto: Fausto Muniz

Patrick queria conversar com alguma coisa. Ao longo da sua vida, Patrick somente havia conhecido outra criatura igual a ele uma única vez. Ela era linda e ele se apaixonou instantaneamente, paixonite à primeira vista. Só que ela era assim como os outros. Era travada e adorava solidão. Assim que ela o percebeu, jogou o pó no ar e desapareceu em segundos. Ela era uma leprechaun como qualquer outro. Patrick, não. Patrick, aos pouquinhos e pouquinhos, estava começando a cansar de ser como qualquer um leprechaun.

Patrick andarilhava pelos quatro cantos da Irlanda, dos lugares mais remotos, mais solitários, mais ermos, aos mais barulhentos. Foi quando conheceu Dublin e a escolheu como sua “casa”. Casa, para ele, era um lugar onde poderia ficar dois dias em um ano inteiro. Nos outros locais, ficava algumas horas, às vezes alguns segundos, e depois zapava, corria. Patrick era um mestre na arte de aparecer e desaparecer como ninguém. Pelo menos, para ele mesmo, afinal, ele não conhecia mais ninguém a não ser ele mesmo. Assim, ele mesmo era referência em tudo para ele mesmo.

Em Dublin, nos únicos dois dias que ficaria ao longo dos 365 de um ano inteiro, ele se aquietava no St. Stephen’s Green Park. E tinha um cantinho que ele amava: bem ao lado do lago dos cisnes, um local inacessível por qualquer grandalhão, seja pato, cisne, pombo, gaivota, e, principalmente, aquelas coisas grandes com duas patas, dois braços e uma cabeça, que ele uma vez soube que se chamavam “gente”.

Ele corria como um doido dessas criaturas. Elas causavam medo, com seus sorrisos e brincadeiras, principalmente quando abriam a boca, mostravam os dentes e emitiam um grasnado irritante e assustador e pareciam felizes. Algumas vezes essas criaturas colocavam a mão na boca para disfarçar o barulho ensurdecedor de que elas pareciam gostar tanto.

Patrick, que conseguia prever quando elas emitiam esses sons apocalípticos, já andava com um saco imenso de pó para desaparecer no exato instante da bizarrice. No Stephen’s Green, Patrick queria um pouco de sossego. Olhar os patos e irritar as gaivotas eram as coisas que ele amava. Jogava grãos de milho no olho das gaivotas e então desaparecia. Elas enlouqueciam.

Quando o sol dava o ar da graça, as criaturas, as tais de “gente”, se amontoavam nos quatro cantos do parque e a paz acabava. Por isso, Patrick tentava fazer de tudo para aparecer no parque apenas em dias de chuva, frios, enevoados. Naquele dia, o leprechaun apareceu, de repente, no parque, para ficar seu tradicional tempo de quarenta e oito horas do ano em casa. O clima estava perfeito e ele se sentia orgulhoso de ter acertado em cheio no calendário: muita chuva, frio, nenhum sinal de gente por perto.

Sentou-se e ali ficou por algumas horas, exatamente na mesma posição. E sentiu o que já havia sentindo há um bom tempo: precisava abrir a boca para conversar com algo. Podia ser qualquer coisa. Aliás, para ele, tudo era apenas uma coisa. Não existia em seu vocabulário um significado para aquilo que seria “alguém”.

Então ele, ali, sentado na grama úmida, vendo a chuvinha fina cair sem parar, olhou para a água e fez um gesto com a mão, uma coisa meio doida e desengonçada, sem muito jeito (imagine você como quiser). Não teve resposta da chuva. Insistiu. Queria porque queria ter uma resposta da chuva. Ela apenas caía, nem “tchum” pra ele. Só caía e molhava. Patrick fez o mesmo com um rochedo imenso a sua frente. Para ele era imenso, porque Patrick era miúdo, pouco maior que o gramado.

A pedra foi ainda pior que a chuva e permaneceu estática, na dela, sem fazer nada para responder ao seu chamado. Já irritado, Patrick, pegou uma pedra menor e jogou numa pedrona à sua frente. E fez de novo. E de novo. E de novo. Na quinta vez, nervos à flor da pele, a pedrinha ricocheteou e voou para longe.

Um barulho ecoou logo em seguida. “Finalmente, alguma resposta”, ele pensou.

Foi quando uma sombra imensa começou a encobrir o leprechaun. A sombra se agigantou e a chuva parou de cair. Ele olhou para cima, já preparado para fazer algum sinal e, quem sabe, começar uma conversa.

Parque St. Stephens Green. Foto: Fausto Muniz

Seu coração saiu pela garganta quando percebeu que, na verdade, era uma “gente”, daquelas com aparência menor que as outras. Esse tipo de gente não tinha riscos na cara, nem cabelos brancos, corria de um lado para outro, emitindo ruídos terríveis. E o pior: esse tipo de gente constantemente mostrava os dentes, fazia piruetas e soltava aqueles barulhos horrorosos, que imediatamente assustavam o pobre duende.

Patrick ficou tão apavorado que não conseguia mover um músculo de seu corpo. Ficou paralisado, como nunca em sua vida, com os olhos estatelados para aquela espécie olhando para ele. Eles ficaram se encarando por um longo tempo. De repente, a criatura piscou os olhos. Patrick, embora paralisado, piscou também. A criatura voltou a piscar os olhos. Patrick fez o mesmo. “Então é assim que eles fazem… interessante”, pensou, agora, pouquinho mais calmo.

A criatura começou a abrir sua boca, como se se preparando para falar. Patrick entrou em desespero… “socooorro!!” O leprechaun pegou o saco com pó de sumiço e de dentro retirou o suficiente para desaparecer em milésimos de segundo. Quando colocou na palma da mão o feitiço, o pó estava completamente encharcado da chuva. Patrick jogou o feitiço no chão. Nada mudou. E o que ele mais temia, aconteceu…

“Oi!”

“NÃAAAAAAAOOO!!!”

O leprechaun disparou para dentro de uma trilha de árvores altas. Sumiu da vista da criatura. Ele olhou para trás: a jovem criatura já estava longe. Patrick respirou aliviado e correu para um abrigo da chuva. Teria que esperar mais algumas horas para que o pó de sumiço secasse e voltasse a funcionar.

Uma gaivota se aproximou.

Patrick caminhou devagar e olhou para um dos olhos do bicho. E então, piscou. A gaivota estranhou, balançou a cabeça, deu um passo para trás. Patrick piscou de novo. E a gaivota piscou. Ele piscou outra vez. Mas a gaivota não piscou… Ela abriu o bico e soltou um esguicho em tom de ameaça. O primeiro impulso de Patrick foi correr. Ele então encheu os pulmões e:

“OOOOOOI!!!!”””

A gaivota bateu as asas e saiu voando.

Patrick então olhou para a chuva e piscou. Olhou para a pedra e piscou. E começou a dizer Oi para tudo ao seu redor. Conseguia conversar com qualquer coisa.

Na moral, ele era “O cara”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s