Contos Mágicos de Dublin: A quadrilha da praia de Dun Laouguire

Inspirado no poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, esse conto narra as aventuras de um grupo de amigos brasileiros, das mais diversas regiões, em um raro dia quente em Dublin.


Laura gostava de Tiago, que gostava de Nara, que gostava de Tati, que gostava de Diego, que gostava de Lucas, que gostava de Laura. A história era basicamente essa, uma explícita imitação do clássico poema de Drummond, e ninguém sabia disso. Nenhum deles sabia que fulano gostava de cicrano, que curtia beltrana, que era caidinha por cicrana.

E ainda assim, continuavam amigos, que dividiam algumas coisas da vida entre si, como o mesmo flat, o mesmo trabalho ou a mesma escola. Em Dublin, era muito fácil compartilhar espaços pequenos para um pedacinho da vida, e ainda mais porque a vida “normal” eles haviam colocado em banho-maria por um tempo. A vida com mamãe, papai, mercado de trabalho, trânsito caótico, ou ainda filhos e casamento.

No Brasil, eles e outros intercambistas eram administradores, jornalistas, advogados, engenheiros, publicitários, contadores, analistas de RH, de RP. Analistas de alguma coisa, que deixou de significar alguma coisa em algum momento da vida. Na Irlanda, eles eram porteiros, seguranças, faxineiros, zeladores, sanduicheiros.

Para alguns, os sonhos viraram poeira com a recessão econômica no país de origem, a explosão do desemprego, a saturação do mercado de trabalho para recém-formados, o cenário político controverso, instável, hostil e desacreditado. O Brasil, que havia vivido anos de euforia, de otimismo, virou um país desgovernado, com cidadãos descompensados, que confundiam o significado do termo “discussão” com o verbete “briga”.

Por alguns meses, eles viveriam como se nada disso fizesse mais sentido. Gostavam de chamar a si mesmos como “os da fora da reta; os que estavam na curva”. Laura era formada em filosofia, mas trabalhava no Brasil como professora de português. Tiago era barbeiro, mas como tinha pouca prática, cortava cabelos gratuitamente e nunca teve coragem de cobrar nada.

Nara, psicóloga, passava o dia analisando formulários de Recursos Humanos. Tati tocava os negócios da família, sendo que um deles havia fechado e outro prestes a encerrar. Diego era economista e trabalhava como contador. Lucas era jornalista: nunca havia conseguido emprego na área. Vendia carros usados.

Esse grupinho nos seus vinte, trinta e poucos, todos solteiros, em que um gostava do outro sem saber que o outro gostava de um, conheceu-se em Dublin nos cursos de inglês, entrevistas para vagas residenciais, baladas e outras esquinas da vida. Rapidamente, o grupo entrou no whatsapp e criou um vínculo de amizade. Na verdade, um queria “nhanhar” com o outro, mas a linha tênue da amizade funcionava como um “dedo moral” que dizia tipo assim: “Não! Ele é seu amigo!”.

Dun Laouguire. Foto: Fausto Muniz

Tomados pelo desejo latente de fazer sexo entre eles espírito de aventura, o grupo saiu numa caminhada para Dún Laouguire (esse palavrão é lido como “don líure”, eu acho), litoral próximo ao centro de Dublin, num dos raríssimos dias de sol da cidade e de folga simultânea entre eles.

Na lista:

1 — Comidinhas: OK.

2 — Roupinhas: OK.

3 — Celulares-devidamente-carregados-para-as-extensas-e-intermináveis-sessões-de-fotos-que-comprovassem-para-os-familiares,-amigos,-inimigos-ou-porra-nenhuma-no-Brasil-o-quanto-eles-estavam-bem,-felizes-e-saudáveis: OK.

O Instagram teria um colapso naquele raríssimo dia de sol.

No meio do caminho, um céu de um azul puro fez a felicidade do grupo em questão de instantes. E no meio do caminho veio uma nuvem branquinha, mais parecia um chumaço de algodão. E depois outra. E mais outra. E mais outra. E esse grupinho de nuvens fofinhas ganhou volume e se escureceu. O sol, que já não era lá essas coisas, foi ficando cada vez mais preguiçoso. A qualquer momento, o astro-rei se deitaria em uma daquelas nuvens e ligaria o laptop para zapear o Netflix. Trabalhar que era bom, nem um pouco. O sol era artigo de luxo na Irlanda.

Dun Laouguire. Foto: Fausto Muniz

“Vaaaamos voltar pra casa. É capaz! Olha só! Cabou-se o sol!” Laura soltou.

“Mas esse trem ‘aintá’ quente, uai” Tiago respondeu.

“Ôxe ôxe, cadê esse sol, hein? Vai é cair um toró daqui a pouco, visse?” Nara disse

“Por mim, nóis ‘vorta’ pra casa é agora”, Diego falou.

“Mano… por mim, a gente procura alguma coisa pra fazer aqui. Tá quente”, Lucas sugeriu.

“Mas tá QuenTE onDE? Tá com a cabeça no Brasil, é, Lucas?”, Tati comentou.

“Bah, vamos para seu flat, Tiago”, Laura sugeriu.

“Sim. ‘Sajeitudo’ lá e pronto”, ele respondeu.

“Fechou! Arretado!”

“A gente passa antes no Tesco compra mais umas cerrrveja lá, umas Tesco Beerrr.”

“Compra ‘umas carne’ também”

“ExatamenTE”

O grupo pediu pra descer e saiu do busão duas paradas depois que o impasse se resolveu. Aos poucos, uma chuvinha fininha começava a cair.

“Ô Tiago, mas eu sei preparar uma caipirinha que vai derrubar você na primeira!”

“Êeee Laura, trem bão! Acho que Nara vai querer também”

“Sei se vai sobrar pra ela, não!”

“Mai mai mai meniiino! Vai sobrar sim e Tati vai ficar bebinha que eu sei que vai!”

“Olha, mas não vem com tua conversa de me embebedar, guria! Diego é que vai provar essa marvada!”

“A marvada pinga! Essa marvada vai fazer um estrago é no Lucas!”

“Nem vem, mano, nem vem! Laura é que inventa essas fita”.

Um ficou jogando a bola para o outro, num caleidoscópio de sotaques e expressões dos vários Brasis reunidos em poucos metros quadrados. A chuvinha foi ficando mais grossa e o jeito foi correr da parada e procurar um abrigo por ali. Quando o grupo correu, o ônibus amarelão do “Dublin Bus” passou direto. Parar que é bom, nada. O próximo viria em 45 minutos. O silêncio pairou entre esses Friends por alguns minutos até ser quebrado pelo som refrescante e festeiro de uma lata de cerveja sendo aberta.

– Por mim, a festa é aqui merrmo!

Uma onda de risadas ecoou longe na estradinha, que ficava a poucos minutos da praia de Dun Laouguire. Cada um abriu sua lata e assim o grupo saiu cantoria afora, até alcançar o litoral chuvoso e frio do novo país que havia aberto as portas para eles.

Laura continuou gostando de Tiago, que gostava de Nara, que gostava de Tati, que gostava de Diego, que gostava de Lucas, que gostava Laura. No auge da beberrança, ninguém ficou com ninguém, ninguém pegou ninguém, porque, se ali alguém gostava de alguém, ninguém era correspondido por ninguém, e eles preferiram ficar somente no nhém-nhém-nhém.

A vida fora da curva era meio incerta. Ainda assim, apesar disso, daquilo e daquilo outro, a vida, para esses brasileiros, era uma grande festa.

“Compra ‘umas carne’ também”

“ExatamenTE”

O grupo pediu pra descer e saiu do busão duas paradas depois que o impasse se resolveu. Aos poucos, uma chuvinha fininha começava a cair.

“Ô Tiago, mas eu sei preparar uma caipirinha que vai derrubar você na primeira!”

“Êeee Laura, trem bão! Acho que Nara vai querer também”

“Sei se vai sobrar pra ela, não!”

“Mai mai mai meniiino! Vai sobrar sim e Tati vai ficar bebinha que eu sei que vai!”

“Olha, mas não vem com tua conversa de me embebedar, guria! Diego é que vai provar essa marvada!”

“A marvada pinga! Essa marvada vai fazer um estrago é no Lucas!”

“Nem vem, mano, nem vem! Laura é que inventa essas fita”.

Um ficou jogando a bola para o outro, num caleidoscópio de sotaques e expressões dos vários Brasis reunidos em poucos metros quadrados. A chuvinha foi ficando mais grossa e o jeito foi correr da parada e procurar um abrigo por ali. Quando o grupo correu, o ônibus amarelão do “Dublin Bus” passou direto. Parar que é bom, nada. O próximo viria em 45 minutos. O silêncio pairou entre esses Friends por alguns minutos até ser quebrado pelo som refrescante e festeiro de uma lata de cerveja sendo aberta.

– Por mim, a festa é aqui merrmo!

Uma onda de risadas ecoou longe na estradinha, que ficava a poucos minutos da praia de Dun Laouguire. Cada um abriu sua lata e assim o grupo saiu cantoria afora, até alcançar o litoral chuvoso e frio do novo país que havia aberto as portas para eles.

Laura continuou gostando de Tiago, que gostava de Nara, que gostava de Tati, que gostava de Diego, que gostava de Lucas, que gostava Laura. No auge da beberrança, ninguém ficou com ninguém, ninguém pegou ninguém, porque, se ali alguém gostava de alguém, ninguém era correspondido por ninguém, e eles preferiram ficar somente no nhém-nhém-nhém.

A vida fora da curva era meio incerta. Ainda assim, apesar disso, daquilo e daquilo outro, a vida, para esses brasileiros, era uma grande festa.

Centro de Dun Laouguire, Dublin. Foto: Fausto Muniz

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