Contos Mágicos de Dublin: O tamborzinho da cantora alérgica da Mary Street.

Depois de tentar ser advogada no Brasil, Vivi embarcou para a Irlanda para realizar seu grande sonho: ser cantora. O grande dia chegou, mas ela vai precisar lidar com um inimigo que a acompanhou a vida inteira: seu nariz.

Mary Street ao amanhecer. Foto: Fausto Muniz

“Bem que ‘binha bãe bandou’ eu trazer ‘bais’ antialérgico. Eu ‘debia’ ter ‘oubido’ ela, ‘bas’ eu fui ‘teibóda’”.

Vivi já não sabia mais o que fazer. O nariz havia entupido de vez. Tinha 24 anos. O intercâmbio havia sido pago pelos pais, que finalmente haviam desistido de fazê-la seguir em frente na carreira de advogada. Prestou o exame da Ordem dos Advogados e ficou lá no fundão da lista. Chegou nem perto de ser aprovada, ainda na primeira fase. Foi uma estudante medíocre do primeiro ao décimo período, com sofridos 6,5 e 7 em suas médias em praticamente todas as disciplinas. Cansou-se de ir para as finais a cada semestre. Conseguiu finalizar o TCC depois que pagou para alguém terminar. O trabalho precisou ser refeito, do início ao fim.

Diploma na mão, Vivi foi atrás de emprego na área, ainda que sem estar filiada ao órgão oficial de sua classe. Conseguiu um estágio numa firma para fazer clipagem do Diário Oficial. Não era nem emprego, apenas um estágio para uma recém-formada desesperada por algum trabalho. Vivi passava horas apenas lendo o Diário Oficial. Lia os enunciados, os comunicados. Foi demitida após quatro meses de trabalho, por ficar ouvindo Spotify durante o serviço.

Pesquisava os assuntos errados, que não tinham nada a ver com o serviço. Pelo menos conversava bem sobre música. Seu chefe gostava de ouvir suas conversas sobre MPB e outros estilos musicais internacionais. E foi numa dessas conversas que ele abriu o YouTube e mostrou um amigo que estava tocando e cantando nas ruas da capital irlandesa. Ele fazia um tal de “busking”, que era se apresentar e ainda ganhar uns trocados por isso. Não era bem um show, mas quase isso: o artista ficava em um local cantando e as pessoas jogando moedas.

Vivi ficou gamada à ideia de cantar nas ruas da Europa. “Que chique. Imagina isso na minha biografia!”. O então chefe de Vivi disse que vários artistas de prestígio haviam começado dessa forma, como Damien Rice, de “The Blower`s Daughter”. “Vou seguir os passos de outros artistas famosos! EU AMO CANTAR! E odeio advogar!”. Advogar foi uma coisa que ela nunca havia feito na vida. E já odiava. E já sabia que havia escolhido a profissão errada, depois de longos seis anos de faculdade. Foram seis anos porque ela havia perdido um, com algumas reprovações.

O problema é que ela não tinha dinheiro para isso. Não tinha dinheiro pra quase nada, na verdade. Gostava de cantar, mas não sabia tocar violão. “o principal eu tenho, minha voz!”. Assim, sem violão mesmo, Vivi cantarolava pelos quatro cantos da casa. Ela já fazia isso, mas depois que descobriu que ‘tinha o dom de cantar’, começou a praticar o tempo todo, até ficar rouca. Quando ficava rouca, cantava mesmo assim, até perder a voz. “no pain, no gain. Se tá doendo é porque tá bom, estou no caminho certo, o coach do YouTube disse”.

Ela dizia aos pais que estava em sua “Prática Musical Diária para Profissionalização”, que durava o dia inteiro, acompanhada de inúmeras maçãs vermelhas e trocentos litros de água. Nos dias de frio, usava antialérgicos para controlar os espirros de sua incessante rinite alérgica crônica. Como ficava lerda, cantava bossa-nova. Um dia sua mãe chegou com um panfleto da rua. Era sobre intercâmbio cultural.

“Que massa! Onde, nos Estados Unidos? Na Austrália? No Canadá? Eu AMO Nova Iorque! Mesmo sem nunca ter ido lá! Minha intuição sempre teve uma conexão muito forte com os Estados Unidos”, respondeu à mãe, cujo sorriso amarelava a cada novo país que a filha citava.

“Não, meu amor, é na Irlanda! Você conhece? A terra da Enya”.

“Ah… sei… — pausa para uma leve murchada — aquela cantora que você escuta enquanto tá na sala do dentista?”

“Essa mesma.”.

“Hum, sei… O U2 veio de lá”.

Não precisou de muita coisa para convencer Vivi e ela embarcou para a Irlanda dois meses depois, para alívio dos ouvidos dos pais. Em Dublin, o primeiro local que conseguiu ficar foi no Mountjoy Square, uma praça que, com o grande fluxo migratório para o país, tornou-se uma espécie de vila de brasileiros.

Depois, em menos de oito meses, mudou-se para Smithfield, Summerville, Cabra, Dorset Street… até, finalmente, ficar de vez na Jervis Street. Nesse vaivém, pra lá e pra cá, nunca conseguiu tempo suficiente para cantar. Depois de correr atrás da burocracia necessária para se apresentar nas ruas e pagar as devidas taxas, havia chegado o grande dia.

Seu espaço seria em frente ao Ilac, o shopping center, próximo à rua da feira, local lotado de gaivotas berrantes e loucas pelos lanches de transeuntes. O problema é que, no grande dia da apresentação, a chamada “hay fever”, a alergia gerada pela forte presença de pólens no ar, havia atacado em cheio o nariz da pobre Vivi. Atacou e atacou feio: deixou tudo entupido, não havia molécula de ar que entrasse naquelas fossas nasais completamente congestionadas.

“Não tenho conditões de cantar atim”.

Ela então foi ao armário da cozinha, em busca de algum remédio que aliviasse sua condição, e viu uma caixa de comprimidos anestésicos e antitérmicos. Já estavam com o prazo de validade vencido havia poucos meses.

“Já ‘cobi’ tanta ‘coida’ fora da validade. Acho que não vai ‘fader bal’”.

Tomou dois comprimidos, para reforçar. Foi no banheiro, deu aquela assoada forte no nariz, capaz de botar o cérebro pra fora. Seus olhos, cheios de lágrimas da crise alérgica, ficaram cheios também de esperança quando ela conseguiu respirar profundamente pelo nariz. Sorriu.

Pegou o tamborzinho, já que não sabia tocar violão. Pegou também o microfone e saiu para a rua. Chegou ao local, ligou o aparelho e deu uma olhada na playlist que havia preparado. Muito pop internacional e algumas brasileiras. Deu aquela limpada na garganta, “ahã ahã ahã”, e começou.

“And so it is just like you said it would be…”

O nariz continuava entupido. Sua voz parecia com a de Aguinaldo Timóteo. Vivi continuou performando, misturando as letras românticas e melancólicas daquele Pop com a batida brasileira e quente de seu tamborzinho. Ninguém mais naquela rua usava um tamborzinho para cantar músicas românticas internacionais e era o único instrumento que a cantora do nariz entupido sabia tocar.

Dois turistas pararam e levantaram seus Ipods modernos. Vivi não acreditava que sua voz anasalada pela rinite alérgica já lhe trazia dois fãs e era apenas a sua primeira apresentação. Vivi abriu um sorrisão brilhante e molhado de coriza naquele instante.

“Eu gostei dela”. O turista comentou para o outro, ao pé do ouvido.

“Sim… ela é exótica!”.

“Não consigo identificar esse sotaque.”

“Deve ser uma mistura de América Latina com a Índia”.

“Uau”.

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