Contos Mágicos de Dublin: O Senhor de Dublin

Os quatro cantos da capital irlandesa são dominados e aterrorizados por James e seu exército de gaivotas treinado ao longo dos séculos. Seu império é posto em xeque quando um antigo rival volta à tona e ameaça roubar seu território. Livremente inspirado em Game of Thrones (que eu nunca assisti).

Gaivotas são o verdadeiro símbolo de Dublin. Cuidado com seu lanche, quando sair nas ruas. Foto: Fausto Muniz

C#omeçava com verde, depois azul, alguns tons de roxo, puxando para vermelho. Então ficava amarelão, forte, vivo. Branqueava e ficava rosado, até misturar tudo e que cada um enxergasse a cor que quisesse ver. Esse era o céu de Dublin. Um céu, nos meses de outono, que se aquarelava numa explosão de cores muitas vezes sem coerência. E era nesse céu que dois olhinhos voavam de um lado para o outro. Olhos ágeis, astutos, verdadeiras armas em busca de sua presa.

Eram os olhos de James, com suas asas brancas e vigorosas que atravessavam os quatro cantos da cidade com a velocidade que colocava as gaivotas em uma posição muito superior à dos pombos. A O`Connell Bridge, ponte no centro de Dublin, era seu território. James mantinha aquele pedaço da Irlanda debaixo de suas asas, 24 horas por dia, incansavelmente. A gaivota mantinha controle sob o centro do município e a entrada ali somente seria possível com uma condição: a autorização do Primeiro Comando de Gaivotas da Capital.


Em caso contrário, era guerra na certa. James detinha o domínio daquelas pontes. Pombos e outras gaivotas deviam obediência a ele e precisavam seguir as regras do Comando. Pombos, aliás, eram uma espécie de subalternos. Suas asas fracas, seu corpo pesado, seu voo limitado e caminhar lento eram ridicularizados pelas gaivotas, que apenas deixavam os restos dos alimentos para eles.

Quem desobedecesse às ordens de James e seus companheiros estava comprando briga com um exército. A tropa de James era a mais bem treinada e qualificada de toda Irlanda, capaz de destroçar qualquer saco de lixo que estivesse à sua frente. Seus futuros integrantes eram educados com as mais avançadas técnicas que o país conhecia, com foco na caça dos lanches das criaturas que andavam distraídas por entre as ruas da cidade. A caça a esses alimentos consistia em três fases: observação da vítima, distração (por meio de guinchos estridentes) e, por fim, a aquisição. Às vezes, a caça trazia objetos estranhos, um pouco mais pesados, com formato quadrado.

Ponte em Dublin. Foto: Fausto Muniz

Os animais humanos carregavam esses troços algumas vezes ao lado das orelhas, enquanto emitiam seus sons inaudíveis, mas geralmente traziam esses objetos nas mãos e deslizavam suas patas neles. Muitas vezes, os animais esbarravam uns nos outros porque não prestavam atenção no caminho ao redor enquanto mexiam nos objetos.

O mais insuportável era quando os bichos direcionavam essas pedras coloridas para James e seus companheiros enquanto caminhavam pelos seus territórios. Por isso, James emitiu uma ordem para que seus soldados tivessem cuidado ao ver as criaturas segurando essas pedras.

O exército de James permanecia mantendo a ordem e os bons costumes pelas ruas e pontes de Dublin. Acordavam cedo: nos dias de primavera e verão, o expediente começava às quatro da manhã, com uma megaoperação que cobriria as principais ruas, revirando os sacos de lixo deixados generosamente pelos bichos na frente de seus gigantescos ninhos de madeira e tijolos.

James emitia a ordem de controle com a experiência adquirida com seus antepassados: uma linhagem repleta de talentos seculares, nascidos no tempo em que Dublin era uma cidade chamada pelo nome de “Água Escura”. James orgulhava-se de seu sangue real.

Naquele dia, a operação percorria as ruas tranquilamente, até que um sinal subiu nas imediações da Ha’penny Bridge. James e o grupo, que cobria a Capel Street, disparou do local, cruzando a Jervis Street, até alcançar a região do Temple Bar, próxima ao quartel central do Conselho. E então ele viu, ao longe, com seu inconfundível bico preto, bem no coração da O`Connell Bridge: Conor Kavanagh.

Conor era o único ser vivo naquele planeta com a audácia suficiente para invadir o território de James e instaurar uma guerra civil. Desde sempre, James treinou seus soldados para lidar com possíveis ameaças e invasões de inimigos, mas os cuidados eram redobrados quando o assunto era Conor, seu ex-braço-direito, que se rebelou contra ele numa disputa de poder para além das pontes de Dublin.

O clima de paz durou anos, com o exílio de Conor na região de Bray. Até aquele dia. Um dia que havia começado como qualquer outro. A guerra estava instalada nas pontes seculares e históricas de Dublin. Bicos e penas voariam para todos os cantos e não sobraria pedra sobre pedra, nem ponte sobre ponte. As águas do rio Liffey seriam as testemunhas de um conflito sem data para terminar.

A mente de James fervilhava. Seu primeiro impulso foi de convocar a tropa inteira e partir para o enfrentamento em plena ponte da O`Connell. James pensou duas vezes. Preferiu manter a retaguarda e observar os movimentos do seu pior inimigo. Conor invadia o território central de James e avançava sobre a O`Connell Street com o poder de seu exército de gaivotas.

“Senhor, a O`Connell está sendo invadida!”

“Precisamos agir!”

“Senhor…”

“CALEM-SE! Chegou o momento… chegou o momento que parecia que nunca iria chegar, mas chegou. Sem mais rodeios. Com coragem, determinação e sangue frio. Engulam seu orgulho e pensem no futuro deste país, de nossos territórios e das latas de lixo e lanches dos animais que alimentam nossas famílias. É chegada a hora de ativar a Operação… CONOR.”

Silêncio no exército. A Operação Conor consistia naquilo que as gaivotas consideravam o maior golpe no orgulho e vaidade de sua raça.

“A Operação CONOR é um ultraje ao nosso exército e à nossa espécie! Há de haver alguma alternativa, senhor!”

“Não há alternativa! Muitos de vocês não sabem, mas Conor foi o principal soldado deste grupo. Tudo o que vocês aprenderam, ele também aprendeu. Ele sabe cada passo, cada estratégia, cada esguicho que iremos dar. Ele sabe de cada asa batendo aqui, nesta cidade. Ele sabe de tudo… Exceto… a operação com seu nome.”

“Nunca fizemos isso!”

“Vão ter que fazer agora!”

Ele respirou fundo e bradou:

“Em nome dos nossos filhos, do futuro de nossa nação, nosso sustento… Vamos ser fortes e, não orgulhosos. Vamos ser corajosos, e não vaidosos! Esqueçam sua honra e pensem na sobrevivência de nossos herdeiros e de nosso país. É hora de erguer nossa voz. É hora de ativar… OPERAÇÃO CONOR!”

Silêncio.

“Eu… falei… ATIVAR: OPERAÇÃO CONOR!!!”

Uma onda de esguichos ressoou. E dentro de poucos minutos, o exército de James sobrevoava o céu de Dublin, acompanhados, no chão, pelo ritmo dos passos de um pesado batalhão de pombos. Uma guerra de penas e asas tomaria conta da O`Connell Street, enquanto turistas se avolumavam para ver o céu acinzentado pela enxurrada de penas de aves.

“Você não tem poder para me enfrentar, James! Essa é a minha ponte. A ponte de onde você me expulsou. Agora ela volta a ser minha. What’s the story, man?”

“Existe uma história que você não sabe. Você sabe qual é essa história, Conor? Eu vou contar agora…”

E os olhos de Conor se arregalaram quando ele viu no horizonte, por cima das pontes Ha`penny, Samuel Becket, e muitas outras, uma volumosa bolha sendo carregada pelo exército de asas de James. Uma bolha gigante. Uma bolha de pombos.

“FOOOOOGOOOO!!!”

O exército de James alcançou a ponte onde Conor estava e rompeu a bolha de aves em cima do bando inimigo. Uma chuva de pombos pesados e histéricos começou a cair por cima dos invasores. As gaivotas se debatiam e dispararam da O`Connell Bridge, ao mesmo tempo em que recebiam os golpes do exército de James.

À medida que Conor e seu bando sumiam das pontes de Dublin, o céu da capital irlandesa voltava a clarear, com as cores mistas e indecifráveis de seu outono. O domínio do centro estava de volta ao exército de James.

Sob a ponte da rua O`Connell, o Senhor de Dublin retornava a seu posto, garantindo a segurança da capital irlandesa até o romper de uma nova guerra.

E as asas de James voltaram a cruzar os céus e pontes por onde as águas do Liffey corriam.

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