Contos Mágicos de Dublin: O prometido do trem Luas

Um presente inesperado. Uma viagem dos sonhos à Irlanda. E uma promessa a ser cumprida. Na Irlanda, será que o jovem e inexperiente Rodrigo vai ser capaz de resistir à tentação? Conto proibido para menores (e para alguns maiores também).

Trem Luas. (Foto: Fausto Muniz)

R

odrigo tinha quer fazer a promessa três vezes, ajoelhado, com a presença dos outros integrantes da sociedade. Ele seguiu todas as regras, passo a passo. Por fim, jurou:

“Eu prometo. Eu prometo. Eu prometo.”

Três também era o número de vezes necessárias para Rodrigo memorizar várias coisas na vida, como nomes de pessoas, de lugares, além de ser o número típico de São Longuinho, o santo dos objetos perdidos. “São Longuinho, São Longuinho, se eu achar minha chave eu dou três pulinhos!”. Ele seguia o costume de muitos brasileiros.

Rodrigo frequentava as reuniões de sua religião quase todos os dias e tinha laços firmes com os outros associados. Ao mesmo tempo, ele também desejava passar um tempo fora do Brasil. Sentia que alguma coisa o esperava para além da terrinha.

Uma vez, ele comentou com alguém sobre esse desejo. Falou sem pretensão nenhuma, como se pensando em voz alta. Algum tempo depois, esse mesmo alguém chegou a ele e comunicou: “parabéns, você vai para fora do país, com tudo pago”.

Ele não acreditou. Ajoelhou-se e agradeceu em lágrimas. Iria para Dublin, capital da Irlanda, estudar inglês. Em troca, teria que fazer um relatório do universo religioso da cidade. Visitaria templos, igrejas de todas as religiões, conversaria com pessoas de todas as segmentações e filosofias.

Seria uma experiência e tanto para um jovem de 19 anos, com pouca bagagem nas costas. Seus companheiros entendiam sua ansiedade, fizeram um esforço, e entregaram o presente.

No penúltimo dia antes de viajar, Rodrigo teve de participar de uma cerimônia, realizada secretamente nos arredores do núcleo e que, segundo os participantes, “teria o objetivo de manter a fidelidade do jovem perante as convicções originais do núcleo”. Rodrigo, sem pestanejar, participou da cerimônia, cuja segunda condição para que ele pudesse receber o benefício da viagem seria a seguinte: total afastamento do sexo.

Sem o apoio do núcleo, Rodrigo jamais teria condições de arcar com as despesas de uma viagem como essa. Passagens, hospedagens, escola de inglês, custos de vida e manutenção. Não era fácil para ele, filho de uma diarista e um comerciante ambulante. Era a oportunidade da sua vida. Já o sexo… bem, o sexo não era grande coisa, ainda. Ele jurou de pé junto que ainda era virgem. No grande dia, Rodrigo chegou ao núcleo para a cerimônia de sua “fidelização aos princípios da comunidade”, e repetiu, ardorosamente: “Eu prometo, eu prometo, eu prometo”.

Três meses depois de sua chegada às terras da ilha verde-esmeralda, Rodrigo arrumou trabalho como Kitchen Porter, um auxiliar de cozinha responsável, dentre outras coisas, em lavar e guardar os pratos, manter o ambiente limpo e organizado. Sem esses auxiliares, qualquer restaurante fecharia as portas.

Rodrigo trabalhava vinte horas por semana, como mandava a cartilha das exigências da imigração. Era pontual na escola. O Núcleo havia providenciado, ainda no Brasil, uma acomodação. Era um pouco distante da escola e do trabalho e, por isso, ele tinha que usar o transporte público todos os dias.

Rodrigo usava o LUAS, um dos trens urbanos de Dublin, que cruzava longas distâncias. Era geralmente bem pontual e evitava engarrafamentos nas áreas mais tumultuadas. Todos os dias, o jovem se sentava na mesma cadeira. Gostava de padrões, estabilidades, rotinas. Gostava de saber que tinha uma hora de sair e outra de chegar. A vida religiosa lhe permitia isso. As restrições às quais se submetia permitiam manter um grau de previsibilidade, conforto, segurança.

Era um dia como qualquer outro. Um dia que mais parecia uma vida inteira, sem atribulações. Rodrigo esperava o Luas, olhando distraído o mundo organizado e civilizado do qual faria parte durante alguns meses. Ele então percebeu uma coisa.

Olhou para outro lado, não queria dar vacilo. Assoviou e colocou os fones de ouvido. Concentrou-se na música — a mesma playlist, como sempre. E olhando para o nada, percebeu de novo. Seus olhos teimavam em manter-se no lugar. Era um rapaz, bonito, alto, com cara de estrangeiro, calça colada, pernas fortes. Rodrigo não podia acreditar, mas, sim, parecia que ele o estava olhando.

Levou a mão ao ouvido, como sempre fazia quando estava nervoso. Olhou para o outro lado. Sua respiração começou a acelerar. Mordeu os lábios. Engoliu o cuspe, a garganta já estava seca. Mexeu na bolsa que carregava nas costas e pegou sua garrafinha com água. Bebeu o resto do líquido de um gole só.

O trem Luas foi se aproximando da estação Jervis, nome de uma rua central, com a loja Penneys, centros de conveniência, cafés e mais. O coletivo chegou e Rodrigo esperou para alcançar o mesmo vagão de todos os dias. Quando já estava há poucos passos da cadeira, o rapaz sentou-se no lugar que ele sempre se sentava. Seu lugar. Como ele poderia! Rodrigo procurou outro lugar, mas não havia mais tempo. Sentou-se bem em frente ao rapaz, num espaço com apenas duas cadeiras, uma encarando a outra.

De imediato, tirou o celular do bolso e rolou o dedo pela tela, seus dedos, gelados. Sempre ouviu histórias de que os europeus eram fechados e tímidos. E certamente aquele rapaz que o encarava era um europeu, com seus traços saxões, sua altura acima da média do típico latino-americano.

Ao passar de cada estação, Museum, Four Courts, Smithfield, entre outras, o trem foi esvaziando. Menos gente entrava e Rodrigo continuava compenetrado na tela de seu celular, com os olhos em estado de guerra para não se desviarem daquele refúgio. Num dado instante, seus olhos se levantaram, nervosamente. E voltaram, piscando tresloucados.

A tentação falou mais alto. Ele voltou a levantar os olhos, sem mexer a cabeça. Então viu uma das mãos do belo rapaz apertando o volume da calça com discrição, mas firmeza. Na terceira vez que Rodrigo levantou os olhos, o volume já havia dobrado. Respirou fundo. Sua boca estava seca. Nem cuspe tinha para engolir e aliviar a tensão.

Na quarta vez que levantou os olhos, viu os pelos pubianos do rapaz. Pelinhos um pouco claros, puxando para ruivo. A mão dele segurou o elástico de sua calça sem zíper e começou a descer bem devagar, mostrando algo mais do que simples pelos escuros.

Rodrigo baixou o olhar, voltou para o celular. Não via mais nada. A tela estava vazia. Tudo estava vazio e ele se mexia de um canto para o outro, embaraçado, nervoso, o coração tremendo na garganta. Levantou, vagarosamente, os olhos, com as pupilas já há muito tempo dilatadas. Viu um pênis ereto, que balançava de um canto para o outro junto aos movimentos do trem. Sua visão periférica se esvaiu e todos os lugares que ele admirava em observar, rotineiramente, perderam a cor.

Durante segundos que mais pareciam uma eternidade, Rodrigo apenas ficou a admirar a imagem daquele pau ereto em sua frente, sem conseguir respirar.

Em instantes, o trem passaria por um túnel. Tudo ficaria, quase, às escuras, por alguns instantes. O momento perfeito. Outros passageiros não viriam. E se vissem? E se os outros vissem?

E se, e se, e se…

Faltavam três segundos para que as luzes apagassem.

3…

“Eu prometo…”

2…

“Eu prometo…”

1…

“Eu prometo…”

E tudo se apagou.

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