Contos Mágicos de Dublin: O duelo entre Nazaré Tedesco e Paola Bratcho na Diceys

As duas maiores vilãs de novelas latino-americanas retornam à vida para um acerto de contas na Diceys, o pub favorito dos intercambistas na Irlanda. Vai ser um recorde de audiência.

Dicey Garden, um dos pubs favoritos dos brasileiros em Dublin. Foto: Fausto Muniz

Uma bolha de ar flutuava das profundezas do Rio Liffey até alcançar a superfície, nas imediações da Parnell Street, próximo ao Temple Bar. Em outro ponto, também no Rio Liffey, mais uma bolha estourava quando chegava à superfície de suas águas. As águas do Liffey são frias, gélidas, ainda que nos poucos dias de sol da velha Dublin. Naquele dia, os patos que nadavam de um lado para o outro estranharam um aquecimento.

Havia uma agitação fora do comum naquelas aves. E à medida que mais uma bolha, e outra bolha, e outra bolha, se alastravam pelas águas do rio, as aves ficavam cada vez mais inquietas, saltando de um canto para o outro.

Em cima, a Parnell Street seguia seu fluxo como em qualquer outro dia. Estudantes e turistas de vários cantos do mundo caminhavam no coração da parte central da capital irlandesa. Em um desses grupos, uma pequena oriental, sentada em um dos bancos que avistam o canal do LIffey, percebeu o bate-bate incessante das asas daqueles bichos. Ela se levantou e seguiu para o parapeito, tentando ver o rio.

Os olhos da pequena se esbugalharam. Em choque, ela começou a caminhar para trás, a boca aberta e o coração latejando, horrorizada. Sua mãe, que conversava com outras pessoas e se lambuzava com um cone de sorvete branco, percebeu a mudança e correu para abraçá-la.

“Meu amor, o que aconteceu?”

A pequena levantou a mão e lentamente apontou o dedo indicador para o canal. Os outros seguiram a direção do dedo e correram para ver o rio. O que se ouviu em seguida foram gritos e exclamações a Deus e a todos os santos. Alguma coisa estava saindo das águas do Liffey. Duas coisas saíam por aquelas águas, em dois pontos distintos.

As águas ferviam. Um calor insuportável expulsou gaivotas, pombos, patos e gente, como se um vulcão estivesse prestes a explodir. Quanto mais aquelas duas coisas emergiam, mais vapor quente era jogado para todos os lados, como se as portas do inferno estivessem se abrindo naquele exato instante.

Primeiro, uma cabeça encharcada, com cabelos longos e ensopados que encobriam o rosto.

Em seguida, ombros e seios encobertos por elegantes vestidos.

Duas mulheres.

Uma delas tinha longos cabelos loiros, levemente encaracolados, e vestia um vestido vermelho. A outra, cabelos morenos claros, lábios encobertos por um batom vermelho. As duas mulheres encharcadas permaneceram flutuando por cima do Liffey por alguns instantes, até seguirem levitando pelos céus de Dublin, acompanhados por uma plateia em pânico.

***

Enquanto isso, em pontos distintos nas imediações do parque Stephen’s Green, a brasileira Maria Paula Silva e a mexicana Dalia Alvarez se preparavam para mais uma farra no mais latino dos pubs de Dublin: Diceys. Era um dia de segunda-feira e a boate receberia uma população esmagadora de estudantes internacionais, que juntavam seus salários em subempregos para convertê-los em generosas doses de cerveja, e outras cositas más.

Maria Paula e Dalia Alvarez eram rivais até a morte. As duas haviam se conhecido durante um teste para faxina no Google. O cargo era disputado, especialmente porque o local fornecia refeições ao longo do dia e pagava cinquenta centavos a mais do que outras empresas. Era o sonho de muitas e muitos cleaners, nome chique e descolado para faxineiros.

No dia do teste, assim que uma colocou os olhos na outra, foi ódio à primeira vista. Quando o resultado saiu, a brasileira conseguiu a vaga. Dália, chegada em Dublin há três meses, só havia conseguido trabalhos esporádicos e estava prestes a ser despejada do seu apartamento: um cubículo a 70 minutos do centro, com mais 15 pessoas. A mexicana viu sua raiva crescer ainda mais.

Maria Paula saiu na frente, porém, dias depois, enquanto conversava com um “crush” irlandês com o qual mantinha um caso há alguns meses, foi surpreendida quando o viu aos amassos… com quem? Claro, Dália Alvarez, bem em frente ao supermercado Tesco da Rua Parnell, uma verdadeira praça latino-americana, onde é possível praticar o espanhol e o português (este último, principalmente) de graça e sem horário marcado.

As duas permaneceram trocando olhares por segundos que pareceram horas. E num gesto ameaçador, Maria Paula levou o dedo ao pescoço, jurando vingança. Ela abriu a boca e falou apenas pelos lábios: “Pego você na Diceys…”.

***

Na tela da TV, a RTÉ, principal canal de televisão irlandês, exibia uma repórter com um boletim de emergência, no Breaking News.

“Segundo testemunhas, as mulheres foram avistadas em pontos distintos do Rio LIffey: a primeira, loira, aparentava ter 70 anos e foi vista no cruzamento da Parnell Street com a O’Connell. A segunda, tinha uma aparência de 50 e os relatos contam que foi avistada ao lado da Happeny Bridge. O mais inacreditável é que elas estariam levitando por cima das águas e um calor insuportável expulsou pássaros do local, como se um vulcão acabasse de se abrir. Algumas pessoas reclamaram dizendo que era ‘um calor dos infernos’”.

***

Dentro da Diceys, Maria Paula e Dália Alvarez começavam a tomar as primeiras bebidas em mais uma tarde barulhenta no local. As horas se passaram como em habitual até que duas sombras escurecessem o céu do jardim da boate. A música parou. Bêbados e drogados pararam. Maria Paula e Dália Alvarez deixaram seus “peguetes” e caminharam pelos corredores em câmera lenta. Parecia uma cena de faroeste em que dois cowboys chegam ao Saloon em busca do acerto de contas.

Uma de frente para a outra, Maria Paula gritou primeiro:

– NAZARÉ TEDESCO!

Em seguida, Dália Alvarez:

– PAOLA BRACHO!

As duas vilãs de novelas latinas, Senhora do Destino e La Usurpadora, se contorceram ao ouvir os próprios nomes, como monstros sendo repelidos ao som de palavras-mágicas.

As quatro mulheres sorriram ao mesmo tempo. Um sorriso que não foi acompanhando pelos olhos, que ferviam em chamas diabólicas. E então, o silêncio reinou. Até que um novo barulho retumbou, sacudindo paredes e balançando as estruturas do mais popular dos pubs:

– AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA…….

O riso ecoou pela boate como um trovão. Seguranças, funcionários e clientes dispararam, aos gritos.

As duas rivais, em posição de ataque, berraram àqueles espíritos das trevas:

– AO ATAQUE!!!

Nada aconteceu. As vilãs permaneceram inertes, olhando entre si. Lentamente, Nazaré Tedesco virou-se para Maria Paula, e Paola Bracho para Dália Alvarez.

– Eu mandei você atacar essa vaca! — Maria berrou.

– YO TAMBIÉN!…

AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA…..

As vilãs soltaram mais uma risada, que trovejou pelos quatro cantos da já deserta Diceys. Em seguida, Nazaré e Paola abriram seus braços finos e envelhecidos, que pareciam dois gigantescos galhos mortos, e agarraram suas invocadoras. Maria e Dália se debatiam dentro dos braços dos dois espíritos, ao mesmo tempo em que pediam socorro.

A força das monstrengas era infinitamente superior. As vilãs latinas permaneciam rindo, numa risada louca, ensandecida. Um terremoto começou a chacoalhar a boate e derrubar tudo ao chão: chopps, luzes. Tudo começava a ruir.

Uma rachadura enorme se abriu no chão da boate, exalando um forte cheiro de enxofre. A rachadura cresceu, até formar um imenso buraco. Parecia uma cratera de vulcão, com fumaça saindo por todos os lados.

Lentamente, Paola Bracho, que agarrava Dália Alvarez, e Nazaré Tedesco, que aprisionava Maria Paula Silva, foram sendo engolidas por uma nuvem de enxofre fervendo.

Do lado de fora da Diceys, era possível ouvir as gargalhadas das vilãs latino-americanas e os gritos ensandecidos das duas cleaners, rivais na vida e na morte.

FIM

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