Contos Mágicos de Dublin: A apaixonada pelo homeless da O’Connell Street

Ela se apaixonou por um sem teto em pleno centro de Dublin e precisa de conselhos amorosos com urgência. O que você diria?

Monumento na O’Connel Street, principal avenida de Dublin, Irlanda (Fotos: Fausto Muniz)

Eu não aguento mais essas espinhas! Ai… desculpa por logo ir falando desse jeito. Eu não sou chata, não… Quer dizer, só de vez em quando. Meu humor muda às vezes… Ai, eu sou insuportável mesmo! Queria ser mais doce, mais fofinha! As meninas dizem que eu sou doce e fofinha, mas eu não sei de onde elas tiraram essa ideia. Ok, vamos lá. Eu estou falando hoje aqui porque eu estava com vergonha de conversar com minhas amigas. Acho que elas não entenderiam. Elas começariam a me julgar e tal. Eu não estou a fim de ser julgada”.

“Certo, minha querida. Aqui você não vai ser julgada. O seu problema são as espinhas? É a acne?”

“Não, não exatamente. Não é bem um problema que eu tenho. É mais uma coisa que aconteceu comigo nesses últimos dias. Uma coisa que, na hora, foi muito bizarro, muito estranho, mas… foi incrível.”

“Certo, pode falar. Sou toda ouvidos”.

“Mas você…. Assim, tipo, vocês são psicólogos?”

“Alguns daqui têm sim formação em psicologia, mas a maioria não. Os Ouvintes Solidários são pessoas que oferecem um tempo de sua vida para, apenas, ouvir outras, pelo telefone, sem julgamentos. Não temos preconceito com nada. Queremos apenas ajudar com um bom ouvido”.

“Ah, que lindo. Nossa, e eu já pensei em ser psicóloga, mas depois eu desisti, sabia?”

“Foi mesmo? E por que você desistiu?”

“Sei lá, achei muito ruim o mercado e tal. Não tive garra pra seguir em frente. A vida inteira eu deixei muitos planos de lado, ou simplesmente eu começava e não continuava. Ou começava, continuava e depois parava. Que coisa irritante, isso!”

“É normal isso acontecer. Quantos anos você tem?”

“26.”

“Tudo isso faz parte. Faz parte da caminhada. Uma hora você se encontra.”

“É o que eu espero, de coração. Chegar aqui em Dublin foi uma vitória. Acho que foi uma das poucas coisas na vida que eu mantive meu foco, continuei e fui até o final. Tive que dizer não para várias coisas, várias tentações na vida, até chegar aqui.”

“Veja só, que maravilha.”

“Sim, sim, mas eu acho que estou voltando a andar em círculos.”

“Por quê?”

“Não sei”

“Você no início disse que alguma coisa havia acontecido com você nesses dias. Quer falar sobre isso?”

“Sim… foi uma coisa muito doida… Não somente foi, é e está sendo…”

“Sei…”

“Eu… me apaixonei por um homeless.”

“Sei.”

“Eu estava caminhando pela O’Connel Street um dia desses, aí parei para olhar alguma coisa no celular, foi quando escutei alguém me chamando. Quando me dei conta de onde, vi que era um homeless, porque ele estava sentado no chão, segurando um copo de papel em uma das mãos. Ele era lindo… tinha uns olhos azuis, uma pele limpa, sem nenhuma marca de nada na vida. Parecia nunca ter tido uma espinha na vida. Seus cabelos caíam no rosto, meio desleixado e charmoso. Mesmo sentado, parecia ser bem alto. Seu olhar… um olhar tão lindo, mas tão cheio de sofrimento… parecia que estava sofrendo mesmo. Ele estava apontando para o chão, com muita, muita educação mesmo. Eu não consegui entender de cara o que ele estava dizendo, de tão encantada que eu fiquei, mas depois eu acordei e vi que ele estava apontando para um papel que tinha caído do meu bolso quando eu tirei o celular de dentro. Eu sorri, toda boba. Ele sorriu de volta. Deu pra ver que ele tinha uns dentes feiiinhos…. Amarelados, maltratados, alguns pretos… mas… eu não fiquei com nojo… eu não conseguia parar de olhar para aquele homeless lindo, no meio da O’Connel Street, gente passando pra lá, passando pra cá, ônibus, táxi, bicicleta, pessoal cantando na calçada…”

“E por que você acha que se apaixonou por ele?”

“Ai, não sei… Eu não conseguia parar de olhar pra ele. Fiquei perdida, quase que me batem, porque eu parei bem no meio do alvoroço do centro, num horário de muito movimento”

“E o que aconteceu depois?”

“Depois que trocamos sorrisos, eu caminhei pra pertinho dele, sem desgrudar o olhar dele um minuto só. E depois eu peguei algumas moedas. Comecei com uma de 20 centavos, mas daí eu pensei: ‘ah, deixa de ser mão de vaca, mulher! Pega feio com o bofe!’. Então peguei algumas moedas de 50. Aí eu pensei: ‘meu deus, foi essa a educação que Dona Onice lhe deu? Hellooou??’ Então eu tirei uma nota de 50 euros… e dei pra ele!”

“Meu deus…”

“Fiz errado?”

“Claro que… não, não, eu que pensei aqui errado. É… enfim, você deu a um homeless uma nota de 50 euros…”

“Ah, mas ele não era um homeless qualquer… ele era liiiiindo! Parecia o Ed Sheeran! E eu adoro Ed Sheeran! Ainda por cima, o filé me ajudou!”

“e então…”

“Ah, depois conversamos! Ele me disse o nome dele, eu disse meu nome”

“Sim, certo. Mas… ah, deixa pra lá, estou aqui para lhe ouvir, apenas”

“Deixa pra lá o quê?”

“Eu não deveria me meter, mas eu sou mãe, e não consigo deixar de ser, mesmo que eu não esteja com meus filhos. Veja: você é nova aqui e parece ter pouca experiência de vida. Provavelmente sabe que muitas dessas pessoas estão na rua por razões adversas, entre elas, drogas, às vezes crimes. Muitos são simplesmente pessoas que não conseguem pagar os aluguéis em Dublin. Eu só quero alertar para você tomar cuidado, certo, minha querida?”

“Sim, claro. Entendo o que você quer dizer, mas, e agora, o que eu faço?”

“Não entendi.”

“Eu… bem… NÓS trocamos WhatsApp. Nós temos o contato um do outro. Eu estou apaixonada por ele e vamos ter nosso primeiro encontro. O que é que eu faço?”

“Mas onde você vai se encontrar com ele, se ele mora na rua?”

“Chamei ele para vir aqui em casa!”

“Meu deus…”

“Eu sei que minhas flatmates não vão gostar, mas eu não quero nem saber. Já está tudo combinado. Ele vem aqui amanhã!”

“Você… você tem certeza, minha querida?”

“Claro que sim!”

“Tem certeza mesmo?”

“Claaaaro que sim! E não há nada que vá mudar minha cabeça… Por quê? Você acha que pode me dizer o que eu faço ou deixo de fazer?”

“Não, minha querida…”

“Então me deixe em paz! Eu quero aquele homeless lindo dos olhos azuis e de pele lisa na minha vida! Sou adulta, sei o que estou fazendo e ninguém vai me aconselhar do contrário!”

“Meu deus…”

“Foi ótimo conversar com você, mas eu sei muito bem o que eu quero, e depois de lhe ouvir, fiquei ainda mais certa. Obrigado pelo conselho. Bye, bye!”

“Tenha uma boa noite, querida… Bye, bye…”


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s