O Caminho de Wicklow: A Aventura (Parte 3)

Dia 3: De Roundwood para Glendalough. Perigos. Será que meu pé vai torcer? Chuva, cansaço. Alguma coisa está errada. Qual seu limite?

Bora forrar o bucho e alimentar as tripa!

Pra variar, acordei com uma ansiedade intensa, uma excitação que não me deixou dormir mais. Tentei ficar mais um pouco na cama, envolto por um friozinho acolhedor e um silêncio restaurador. Levantei-me com o toc-toc da dona da casa. Era a hora de acertar as contas. Ela me deu um bom desconto: dos iniciais 55 euros, caiu para 40.

Ela me deixou só e eu me arrumei para tomar um café da manhã reforçado, irlandês, com tudo que eu tinha de direito. Esse café da manhã foi absolutamente estratégico para que eu me mantivesse bem nutrido ao longo de muitas horas de caminhada. A moça que me atendeu no hostel-restaurante era espanhola e com ela fiz questão de falar espanhol, com sotaque e tudo.

Após a saída de Roundwood e uma longa caminhada por uma estradinha tranquila, com mato por ambos os lados, o caminho continuaria em um trecho de rodovia. Um trecho bem significativo, aliás. Não havia alternativa, eu tinha que caminhar pela estrada para chegar ao próximo ponto. Carros passavam em alta velocidade, de um lado para o outro, com poucos intervalos.

Foi nesse momento que, mais uma vez, eu tive de usar ao máximo minha audição, para que eu ficasse atento à vinda dos veículos por trás. A estrada era de mão dupla, praticamente sem meio-fio. Não havia espaço para pedestres e o jeito foi andar no asfalto mesmo, quase ralando nas laterais para que os carros não me atropelassem. Foi desse modo por um bom tempo.

Eu tinha que ir de um lado para o outro, à medida em que eu avançava, pois os espaços na encosta da pista eram insuficientes. Confesso que temi pela minha vida quando os carros começaram a se avolumar, especialmente nas curvas.

Era perigoso, mas eu tinha que continuar. Viver às vezes é isso, enfrentar perigos, treinar as emoções para momentos mais delicados, superar a sensação de insegurança, até porque, de fato, ela não existe por completo.

Muitas vezes me peguei nesse exercício de comparar a caminhada no hiking com a caminhada da própria vida fora do hiking. Nem sempre você vai ter certeza de estar no caminho certo, mas se você sabe para onde está indo, ainda que se perca, uma hora, cedo ou tarde, você vai voltar para o caminho. E foi assim que eu persisti naquele perigoso trecho até chegar, finalmente, em uma via tranquila, após muitas subidas.

Em uma dada encruzilhada, eu tive as opções de fazer o caminho mais curto para Glendalough ou pegar um desvio e seguir por uma trilha mais extensa. Escolhi a segunda alternativa e na entrada desse desvio, encontrei dois caminhantes que também estavam fazendo o hiking, mas no sentido contrário ao meu: eles faziam sentido SUL-NORTE.

Conversa feita, segui a rota, e estranhei porque já fazia tempo que sentia uma sede persistente. Uma sede que nem pequenos goles continuados conseguiam diminuir. Essa sede me acompanhava desde o momento de saída do café da manhã e eu estava um pouco preocupado porque não fazia ideia de onde encontrar água.

Uma boa alma salvou meu dia.

Eis que poucos metros do início do desvio, encontrei uma placa indicando que havia água de graça. Uma torneira e uma placa infestada de assinaturas e agradecimentos nas mais diversas línguas. Um ser humano maravilhoso e um gesto nobre, que fez toda diferença no meu dia. Longos e suculentos goles da mais pura e saborosa água me livraram de uma sede estranhamente persistente. Provavelmente eu não havia me hidratado de forma suficiente ao longo dos três dias. Gratidão a essa nobre alma.


A caminhada me trouxe novamente a ilustre presença das engraçadas e desengonçadas ovelhas, mas desta vez não teve para onde elas corressem e eu fui bem no meio do grupo, já assustado com a presença daquele predador de capa vermelha e uma garrafa com água. A seguir, a vegetação lilás voltou com força. Com meu avanço na floresta, de vez em quando uma dor no tornozelo começava despertar a minha preocupação.

Eu havia torcido esse tornozelo em Dublin, na corrida para chegar a tempo em sala de aula, atrasado como quase sempre na vida. No alvoroço, meu pé virou e logo uma bola imensa cresceu na mesma hora. Eu não tratei com o devido cuidado. Fui trabalhar no mesmo dia, tentando fazer menos esforço. Sarar sarou, mas nunca por completo.

Tive receio de virar novamente esse pé e ali seria Era Uma Vez o Caminho de Wicklow. Abaixei e apertei o cadarço com bastante força. Continuei. Como eu já disse, tinha que continuar. Às vezes a vida faz isso, te dá algum alerta, que pode ser falso ou verdadeiro. Se vai ser um ou outro, só o tempo vai dizer. E com o tempo, a lição, e com a lição, o crescimento. Ao fazer o Caminho, aprendi que não precisava todas as certezas do mundo para dar início a coisas que meu coração dizia para fazer. Faça hoje e hoje é o dia, pronto.

O avançar do percurso me trouxe novamente ao meio de uma floresta densa, à la Bruxa de Blair. O tempo mudou progressivamente, até fechar por completo. Grossas gotas de chuva começaram a cair. O vento veio com força e, ao contrário do dia anterior, não parecia que iria parar. Não era apenas uma nuvem, mas um tempo chuvoso permanente. Teria que me adaptar a ele durante o resto das horas.

Uma selfie com um pacote de salgadinho no meio da chuva. Não procure entender (rsrss)

Apesar dos ventos e da chuva, a caminhada foi tranquila. Deu até pra comer salgadinho, no meio do temporal pesado que desabava. Para minha surpresa, novamente vieram trechos com uma vegetação rasteira de um verde muito vivo, esmeralda. Essa coloração foi seguindo pelo caminho, entre idas e vindas, subidas, descidas.

O mais bacana foi a permanente sensação de desconexão. Um total desinteresse das preocupações da vida. Por quase quatro dias, eu dei férias aos meus fones de ouvido e permiti me concentrar na monotonia dos sons silenciosos da floresta, canções que não repercutem nos ouvidos, mas nas outras células. Canções que não fazem barulho.

E cada vez mergulhado nessa atmosfera, encontrei uma descida bastante parecida com outros trechos do dia anterior. Um clima de paz e magia, alimentado com ainda mais força pela solitude, uma palavra forte que define o sentimento de estar na mais harmoniosa e prazerosa companhia de si mesmo, sem precisar da presença de outros.

É o oposto da solidão, um termo de cunho mais negativo, pois solidão é um sentimento de vazio, de tristeza por não estar acompanhado por ninguém. Não estar na companhia de ninguém e estar feliz e em paz com isso é estar em solitude, e essa sensação foi uma das forças mais incríveis que o The Wicklow Way me apresentou.

Em um dado momento, em um dos declives, eu parei. Olhei ao redor, vi aquele verde esmeralda outra vez, espalhado por todos os lados, como areia prateada ou o pó de pirlimpimpim do Peter Pan, e senti que precisava não apenas olhar e contemplar.

Eu precisava TOCAR aquilo. Minhas mãos pediam que eu me conectasse com ainda mais profundidade naquele ambiente envolvido por misticismo e uma misteriosa paz.

Sentei-me em uma clareira no meio das árvores, por onde caía alguns tímidos raios de luz, segurei nos galhos, alisei o gramado. Fechei os olhos e fiz uma prece em voz alta, para o positivo em quaisquer de suas manifestações ou palavras. Fosse Deus, ou os espíritos da floresta, ou toda sorte de energia que move o mundo. Agradeci.

até onde ir?

A saída da floresta logo me apresentou ao povoado de Glendalough. Como ainda era razoavelmente cedo e eu tinha disposição de sobra para aproveitar o restante das horas, eu caminhei para o Parque de Glendalough onde, segundo o livro-guia, haveria outras trilhas a serem exploradas. Pobre de mim que não sabia o que me aguardava dentro de algumas horas.

Ao chegar ao Parque, busquei informações no ponto de informações turísticas e, empolgado, procurei pela trilha mais difícil, ainda que esta levasse muito mais tempo para ser concluída e exigisse mais habilidades também. Nenhum dos dois eu tinha, mas eu pensava que tinha que ir até o fim das minhas forças. Assim eu fiz. Comecei seguindo as indicações do caminho para realizar o The Spinc Loop. Seriam necessárias de três a quatro horas para concluí-lo, além de uma boa orientação espacial.

A chuva caía com ainda mais força. Cada vez mais eu subia e subia e subia. Não havia absolutamente ninguém no caminho. Era assustador. Comecei a sentir que eu estava assado à altura das minhas coxas.

Havia pedras dentro da bota e o frio era crescente. Decidi parar em uma ponte e me trocar. Tirei uma calça preta que cobria as minhas pernas e coloquei um short leve, desse modo teria mais flexibilidade para caminhar.

Havia uma bolha enorme no meu pé. Roupa trocada, segui mesmo assim, com bolha e tudo. Com o sangue voltando a esquentar, a dor da bolha passou.

Mais a frente, um espetáculo um tanto medonho. Cada vez mais que eu subia, a chuva ficava mais forte, assim como os ventos.

O céu estava bem mais escuro. Eram perto das 19h e a noite viria por volta das 21h. Nesse cenário, subindo por uma encosta, na qual em um dos lados havia plantações de vegetais, no topo desse local, pequenos redemoinhos eram formados. Eles apareciam e desapareciam. Vinham do céu, das nuvens, caíam na terra, e depois se desmanchavam. Surreal. Era tudo muito rápido. Fiquei em êxtase e tentei tirar fotos, mas a chuva não deixava.

Era só chuva. Eu, Deus e a chuva.

Logo eles perderam a força e eu continuei a trilha, que já há muito tempo não se mostrava favorável. Cansaço, com más condições climáticas, além do passar das horas… Tudo convergia ao contrário. Ainda assim, insisti, pois o livro-guia me indicava algumas atrações interessantes no decorrer da jornada. Ao entrar numa trilha fechada com árvores em ambos os lados e o tempo escurecendo, comecei a sentir uma espécie de claustrofobia. Dentro de mim, uma sensação de estar fazendo a coisa errada me alertava continuadamente.

Insisti. Insisti, insisti e insisti, até chegar em um trecho com dois caminhos distintos. Havia uma placa indicando o rumo a seguir. Foi o momento mais crítico em todos os dias do caminho. Uma decisão eu tinha que tomar.

E então, lá dentro de mim, a resposta veio: VOLTE, AGORA.

Desta vez, não titubeei. Respirei fundo. Voltei. E cada vez que eu seguia o caminho da desistência, eu me sentia aliviado. Quantas vezes na vida a gente já precisou desistir? Desistir, embora seja uma palavra carregada de um estigma negativo, na nossa sociedade do sucesso e do espetáculo, é uma necessidade para qualquer um e em qualquer momento de sua vida. É o mais sensato, especialmente quando os sinais dizem para isso.

Não há vergonha nenhuma em desistir. Não há problema nenhum em desistir, principalmente quando essa desistência é o resultado de uma soma de fatores internos e externos. Lembro-me muito bem quando desisti de seguir a árdua jornada dos concursos públicos. Foi uma decisão que, embora acompanhada de algum sofrimento, mostrou-se como a mais conectada com meu coração, e hoje vejo que foi a mais acertada, a mais verdadeira.

Decisões verdadeiras trazem alívio e te impulsionam para algo melhor. Algo melhor não necessariamente significa mais dinheiro, mais prosperidade. Pode ser simplesmente paz. Paz não é calmaria. Paz é força pra fazer, força pra trabalhar, pra seguir em frente, mas com um conforto emocional muito maior, uma segurança psicológica muito mais estabelecida.

Desistência tomada, a paz veio em seguida, e eu já estava plenamente satisfeito, ainda que não houvesse chegado ao fim. O fim já era ali. O fim, às vezes, está no meio. Voltei para o caminho de onde eu vim e rumei para o Glendalough Youth Hostel, mas claro que antes eu me perdi. Minha desorientação espacial nunca se curou completamente. Rodei, rodei e rodei. Mas cheguei, finalmente. E quando cheguei, era a pessoa mais feliz do mundo, de uma exaustão que poucas vezes havia sentido.

Músicas instrumentistas e a beleza da música celta: a Irlanda vende e explora bem sua arte. Os turistas enlouquecem.

O dia seguinte foi de volta pra casa, com fotos e cansaço na bagagem. A volta para o trabalho, as coisas triviais da vida. Ou não tão triviais assim.

Eu recomendo a todos que façam o The Wicklow Way. É uma experiência em que você saboreia:

SOLITUDE

Estar só consigo mesmo, mas estar preenchido e em paz.

CORAGEM

Capacidade de ir em frente e tomar decisões delicadas ou difíceis, e ainda arcar com elas.

MEDO

O medo ajuda a temperar as coisas e você aprende a administrá-lo. Deixa de ser seu inimigo e passa a ser apenas um alerta que precisa ser compreendido.

MEDITAÇÃO

Meditar não ocorre apenas quando se fecha os olhos, como na meditação transcendental. Meditar é deixar sua mente em um estado de calma, serenidade, que limpa seu organismo do excesso de pensamentos e ajuda a ouvir melhor sua alma.

ESPIRITUALIDADE

Não tem nada a ver com religião, embora ela também pode ajudar. É conectar-se com o espírito das coisas, a essência do mundo e de si mesmo. Quando a mente se cala, o espírito, sexto sentido, intuição, todos eles, começam a falar mais alto. Você entende melhor a si mesmo e passa a confiar mais em si.

AVENTURA

É uma necessidade do ser humano. Sem aventura, a vida vira uma bula de remédio, com tudo previsto, sem sabor, sem magia. Quando você se dispõe ao risco da aventura, ainda que seja por alguns dias, em um hiking, acredito que isso te acompanha em outras esferas da realidade. Logo, você ganha mais coragem de arriscar, de enfrentar os medos e de ter uma vida mais revigorada.

TÉDIO

O tédio acompanha a vida. Sem tédio, não haveria excitação. Lidar com o tédio é lidar com o fluxo natural da vida, com suas mesmices necessárias. No Caminho, você entende que essa monotonia é normal, mas que isso não deve lhe tirar dos seus objetivos. Você precisa continuar caminhando, pois as horas passam, o tempo é limitado, e você tem algo a alcançar. O tédio vai aparecer, cedo ou tarde, mas você tem uma meta. Apenas continue.

Desejo a você uma vida dentro de um Caminho.

O Caminho de Wicklow é apenas um.

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