O Caminho de Wicklow: A Aventura (Parte 2, capítulo 2)

Tá com problemas? Faça um hiking!

Segui montanha acima, por entre o matagal rosa-lilás que se avolumava pelos cantos. Ao alcançar o topo, o êxtase de ver a maior cachoeira da Irlanda foi sem igual, ainda mais pela situação de solidão que me rodeava. Uma vista única, sem precedentes.

Acho que essa cachoeira é a Powerscourt Waterfall. Acho (kkkk)

A água caindo por aquele penhasco e indo parar no chão em quase estado de vapor. Eu me lembro bem que parei e fiquei minutos apenas curtindo o presente, que logo ficou monótono, mas não menos rico e poético. Uma experiência que te coloca em outro patamar perante a vida.

As ovelhas e o predador

Segui caminhando pelos rochedos que, embora úmidos pela chuva fina, não me ameaçavam. Não me senti em nenhum momento ameaçado pela umidade daquelas pedras. Elas pareciam dizer que não causariam perigo algum, minhas pernas não temiam escorregar por elas. Quando saí dali, encontrei outro trecho com uma descida imensa e no qual eu vivi o momento mais hilário de toda a jornada.

Amigas de jornada. Bati altos papos.

Ovelhas se avolumavam ao longo de uma descida. Quando comecei a andar e me aproximar delas, elas saíram correndo. Eu fiquei parado por um tempo, para ver se a minha presença não as intimidava. Tentei conversar com elas, chamá-las por nomes próprios, Anita, Clô, Edivalda, Dorotéia.

Foi inútil e as abestalhadas se afastavam de mim cada vez mais. Quanto mais eu tentava ser amigo delas, mais elas fugiam de mim como pastor fugindo de procissão católica. Uma hora, eu desisti, e toquei adiante, caminhando no meio de ovelhas desesperadas que se sentiam ameaçadas pela chegada do predador. Eu ria, como se estivesse dentro de um filme de comédia pastelão infantil. Uma hora eu tive que deixá-las em paz, mas eu cheguei a pensar que havia conseguido companhias para aquele dia no Caminho. As ovelhas seriam minhas parceiras no Caminho de Wicklow.

Quando aquelas bolas de pelo ficaram pra trás, o tempo começou a se fechar. A chuva engrossou. Eu deixei de resistir e finalmente coloquei a capa. A mão pesada do clima veio com ainda mais força, com ventos cada vez mais agressivos. Eu não poderia parar. Eu estava próximo à região do famoso lago da Guiness, um lago cuja coloração escura muito lembra a mais tradicional cerveja irlandesa, daí o apelido carinhoso.

dentro de uma nuvem

A chuva apareceu com mais força, tempestuosa, e foi no meio dela que eu fui parar. Mais exatamente, no meio de uma nuvem, uma camada de água flutuante que levitava pelas montanhas. É belo ver ao longe trechos de montanhas ou serras cobertos por nuvens, mas nada é mais extraordinário do que caminhar bem no meio desses túneis de vapor frio.

Tudo fica branco. Somos tomados por uma brancura que muito lembra o filme Ensaio Sobre a Cegueira, da obra de José Saramago. Quando essa brancura passa por todos os lados, as cores e o mundo se escondem, é macabro, parece que estamos no fim do mundo.

Pausa para selfie ao estilo filme Twister.

Em questão de segundos, essa camada branca segue seu percurso e com sua distância as cores do mundo voltam, algo meio surreal, isso tudo com muito vento soprando água por todos os lados. Era algo parecido como ondas flutuando no meio do ar, indo e vindo, no eterno movimento do mar.

“Lago Guiness” (acho)

Imagino que essa paisagem deva ser ainda mais exuberante em um dia de sol, mas estar no meio dessa onda branca, sendo empurrado para todos os lados, praticamente cego, quase sem sentidos, foi uma experiência desconcertante e mágica. Mal sabia eu que ainda mais magias estariam por vir. O segundo dia do The Wicklow Way estava apenas no seu meinho.

o túnel esmeralda

Eu sempre fui fã de filmes de terror e fantasia, especialmente aqueles gravados em montanhas. Sou fã de carteirinha da Bruxa de Blair pelo transporte que o filme faz em quem assiste. Você sai do conforto de sua casa, do seu sofá, e mergulha no meio de uma floresta com altas árvores atrás da lenda de uma bruxa medieval. The Blair Witch Project foi um estouro no cinema e com certeza alimentou meu fascínio por montanhismo e tudo que foge um pouco do cenário urbano (ainda que eu ame a paisagem das grandes cidades).

O Caminho de Wicklow me presenteou com uma verdadeira imersão em cenários naturais que muito lembram a Blair Witch. Árvores altas, o mais absoluto silêncio, uma sensação fantasmagórica, como se seres de outra dimensão estivessem observando seus passos ao longe, prontos para atacar a qualquer momento.

O clima de mistério, exotismo e horror ficava vez mais forte a cada passo por dentro da profundidade da floresta e atingiu seu ápice em um pequeno trecho que parecia ser uma espécie de túnel. A coloração esverdeada, de um verde esmeralda inacreditável, tornava o local ainda mais místico.

Esse verde se espalhava por todos os lados. Um verde muito vivo, intenso, irradiante. Um verde esmeralda que acentuava ainda mais a vibração mística dali. Foi o local mais extraordinário que eu já estive em toda minha vida. Digo isso porque outros fatores alimentavam essa sensação de deslumbramento e emoção: estar sozinho, no meio do nada, impulsiona o que posso descrever como uma espécie de mistura de fragilidade e força.

Você pode se sentir frágil porque não haverá a quem recorrer em caso de alguma coisa dar errado. Ideias de medo e insegurança relacionadas a criminalidade, ou mesmo condições adversas, podem acentuar pensamentos negativos muito perigosos.

Por outro lado, é exatamente aí, nessa fragilidade aparente, que você encontra uma força interna muito grande. É como se o fato de estar exposto a tudo isso, a todos os riscos, que você percebe o quanto é capaz, o quanto tem potencial para ir cada vez mais longe.

A vida pede esses avanços. O medo vai sempre te acompanhar — ele é necessário à sobrevivência — mas ele não pode te congelar e te paralisar, daí vem a coragem e a ousadia de quebrar barreiras. Outras viagens são mais badaladas e excitantes, isso é fato, mas um hiking nas montanhas ou qualquer experiência de solidão e imersão numa atmosfera exótica possui uma repercussão interna de intensidade e profundidade sem igual.

Nunca esquecerei especificamente desse local. Tirei trocentas fotos, em êxtase, como se estivesse de frente para um astro do cinema ou da música. O exotismo da aventura, pra mim, é muito mais excitante do que qualquer parafernália de show e balada (mas eu sou dançarino amador, viu? Não sou rabugento, hehehe).

Saindo da fantasia de uma dimensão paralela no meio das montanhas, a “civilização” voltou através de uma estrada. A princípio, tudo ok. A chuva ainda não havia passado, mas naquele momento era apenas gotinhas fininhas, fofinhas, que deixavam o clima muito saboroso e acentuavam a quietude, a paz.

Eu estava caminhando para a última parte do segundo dia, a caminho do povoado de Roundwood, e assim que deixei a estrada e voltei para as montanhas, encontrei algumas senhorinhas que estavam esperando o transporte para voltar para o hotel. Elas eram da Holanda. A princípio, estavam um pouco fechadas e inseguras comigo. O fato de eu ser homem pesou um pouco nesse sentido, até porque elas eram idosas e os riscos de criminalidade, ainda que poucos, existem em qualquer lugar do mundo.

Uma boa conversa e um sorriso sincero sempre abrem portas. Falar com desconhecidos é uma verdadeira terapia: te tira da ostra, baixa seu orgulho, trabalha sua timidez. Elas foram de uma simpatia imensa comigo e uma delas me emprestou um pouco do repelente quando eu as alertei acerca das moscas, uma das chatices da jornada. Uma das senhorinhas me mostrou o que trazia para cuidar das moscas: um tipo de rede que cobria a cabeça por inteiro.

Eu apliquei o repelente, agradeci e segui jornada. Eu estava um pouco descrente sobre a volta dessas malditas moscas por causa da chuva e da umidade, que poderia espantá-las, mas eis que o sol voltou um pouco, muito tímido, e com ele os mosquitos. Não teve repelente que afastasse os bichos, então eu tive a grande ideia de usar o casaco como proteção. Foi muito “mão na roda”, as moscas permaneceram me infernizando, mas meu rosto estava a salvo e eu continuei passo a passo, sem o zum zum zum dessas ordinárias.

vou pintar um arco-íris…

Duas alternativas se mostraram como caminhos no meio do caminho. A vida é assim, te oferece muitas oportunidades, mas um momento é preciso escolher. Escolher é muito mais dizer não do que sim. Escolher é negar um monte de coisa pra pegar apenas uma. Sem sinalização, eu escolhi uma das rotas e logo fui parar num trecho sem saída, com declives e um matagal sem fim. Não dava em canto nenhum.

Mal sabia eu que a melhor coisa foi me perder nesta parte. Antes de perceber que, mais uma vez, eu estava no caminho errado, olhando a paisagem ao longe, à direita, o horizonte foi coberto por um gigantesco arco-íris.

Posso afirmar que foi o mais belo que havia visto em toda minha vida. A beleza dele estava justamente na sua proporção absurda e pelo fato de alcançar ambos os lados da paisagem, formando um semicírculo completo, perfeito, sem nenhuma falha.

Seu colorido cruzava o horizonte de forma completa e eu, claro, enlouqueci quando vi. Lembro-me de que saí gritando, MEU DEUS! MEU DEUS! COISA MAR LINDA! HAHAI!!!

Disparei para subir por uma encosta íngreme, cheia de mato, em busca de uma foto que conseguisse captar a ilusão no céu de um lado para o outro, em sua inteireza. Tentei vários closes, várias posições, mas não “cabia” na foto o arco por inteiro. Depois de umas trocentas fotos e de voltar a caminhada, foi aí que eu percebi que estava perdido. Maravilha eu ter me perdido para ver aquela performance ao vivo, de camarote.

a entrevista

A volta ao trilho certo me levou para o povoado de Roundwood. Eu até que pensei em pegar um ônibus de volta a Dublin, pois eu não tinha hostel e achava que não valeria a pena gastar com hospedagem se eu poderia voltar para casa a qualquer momento. O coração, claro, dizia o oposto. Essa forma de pensar era apenas uma forma de pensar, e não a realidade do que eu estava sentindo. Voltar para a cidade, no meio de um hiking e após uma vivência tão profunda como a que eu havia passado, seria uma interrupção de um sonho.

Bank B&B. Parece aquelas casinhas de biscoito que existiam na propaganda da Parmalat.

Ainda cheguei a procurar ônibus, insisti com minha teimosia. Senti um alívio por estar ali, sem qualquer possibilidade de voltar a uma grande cidade. Eu tinha que me aquietar em algum lugar, no meio de um vilarejo fofinho, sem muita coisa. A caminhada me levou ao Bank B&B e uma senhorinha me recebeu após o toque de uma singela campainha. Ela me fez algumas perguntas, como de onde eu vinha, o que eu estava fazendo ali, quem era minha família, o que eu fazia em Dublin. A cada resposta minha, a aparência desconfiada foi se modificando e minutos depois eu estava tomando café com leite e biscoitos na varanda de sua casa.

Ela me deixou sozinho e foi cuidar de suas coisas, sem qualquer medo. Deixar um forasteiro vindo do nada no meio de sua casa: coisas de um país seguro, e que me apertam o coração quando penso que, no Brasil, a criminalidade modifica completamente as relações entre as pessoas. Um país lindo, exuberante, fantástico, mas doente pela violência, que aumenta a desconfiança entre as pessoas, afasta estranhos de outros estranhos e ergue paredes, estruturas complexas de “segurança” como câmeras, cachorros, muralhas, arames farpados. É triste, mas, infelizmente, é a realidade do meu Brasil.

Questionário respondido, comprei comida, escrevi as lembranças do dia que havia se passado, e dormi ansioso para a última etapa da jornada.

CONTINUA… (to be continued…)

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