O Caminho de Wicklow: A Aventura (Parte 2, capítulo 1)

Dia 2: De Knockree para Roundwood. 3 vezes perdido. Aranhas. Dentro de uma dimensão paralela. Sonho e fantasia na Terra do Nunca. Em busca da Bruxa de Blair.

Um bom dia com essa vista levanta até defunto do cemitério!

O segundo dia foi tão extraordinário que, ao seu final, embora ainda mais exausto e louco para apagar, tive que parar por alguns minutos e escrever as idas e vindas de uma caminhada repleta de surpresas, desafios e sensações únicas.

Uma alimentação “saudável-ável” com um valor “nutitititrivo” adequado para uma melhor qualidade de vida. (by nutricionista Ruth Lemos, do viral “sanduíche-íche”)

O dia amanheceu com um belíssimo sol por entre as altas montanhas. Tomei um café da manhã irlandês completo, reforçado. Eu não sabia o que viria pela frente, mas teria que estar bem carregado para encarar uma jornada cheia e que exigiria um esforço físico continuado, por longas horas. Aliás, para a prática de hiking é mais do que necessário haver um treinamento de longo prazo. Seu corpo precisa estar habituado a longas horas de esforço físico.

Depois de comer bem, fotos aqui acolá, saí do hostel e lembro-me claramente que rumei para o lado esquerdo, achando que estava seguindo o guia corretamente. Cada passo dado foi acompanhado por uma SENSAÇÃO de estranheza, de que eu estava fazendo algo errado. A sensação foi acompanhada da constatação de que não havia nenhuma placa sinalizando de que eu estava no caminho de Wicklow.

Ainda assim eu continuei, mas desisti, voltei pelo mesmo caminho e parei no hostel, em busca de orientação. Meu inglês não conseguiu captar todas as palavras dos funcionários, mas consegui captar o mais importante: um dedinho voltado para o lado direito, bem oposto à direção que eu estava seguindo. Esse único dedo me ajudou mais do que 1000 palavras e foi atento a ele que eu voltei, de fato, ao Caminho de Wicklow.

A estrada seguia para o interior fechado, profundo, nas montanhas. Eu ficava besta com o tamanho das árvores, como elas eram bem distribuídas, uma ao lado da outra, de uma forma harmônica, algo completamente diferente do que eu estava habituado, nas florestas tropicais brasileiras. Uma das observações mais importantes e marcantes de que me lembro é que, em nenhum momento, ainda que eu estivesse um pouco entediado ou com a mente querendo algum tipo de alimento, de distração para o silêncio, o passo a passo sem nenhum tipo de emoção ou desequilíbrio, eu quis usar o fone de ouvido.

Levei dois fones de ouvido e deixava o celular bastante carregado, mas nunca sequer cogitei ligar qualquer aplicativo de música, qualquer tecnologia que me reconectasse à mesmice do dia a dia high tech ao qual estamos acostumados.

Até hoje, percebo que minha necessidade de buscar o celular, de ligar a tela, de buscar atualizações, caiu significativamente. Estamos numa sociedade tão ansiosa que sequer nos damos conta disso. Eu sei que não se pode fugir por completo do celular, mas a ansiedade que ele gera vai nos adoecendo progressivamente. Por longas e longas horas, me recusei a sequer tocar no aparelho.

Quando o “tédio” ameaçava me lançar uma carga de ansiedade e me retirar daquele estado contemplativo, eu deixei o aparelho no bolso. O hiking, no final de contas, é um estado meditativo, em que a mente se aquieta, em volta pelo silêncio, pela reconexão com a harmonia da natureza intocada, ou pouco modificada. Uma sensação de quietude e de preenchimento única. O vazio até existe, nós somos seres expostos à sensação de vazio, ela faz parte da natureza humana, mas ele não causa sofrimento. O vazio está lá, dizendo que alguma coisa falta, mas ele não dói, ele só existe, ele está quietinho, e você, com uma força emocional mais desenvolvida, não se machuca tanto por ele estar ali.

Foi aqui que eu escorreguei, mas fui amortecido pela almofada da bunda.

O caminho me trouxe reflexões saborosas, como essas que eu acabei de expressar, mas ele ainda aguardava boas surpresas pela frente. Os próximos passos do caminho seriam trilhados ao lado de um rio, o Glencree. A saída da trilha foi bem em frente ao córrego desse rio. Uma trilha com vegetação alta e densa me esperava e por ela eu segui.

Ao sair da mata, havia um caminho de pedras que cruzavam o rio de um lado para o outro, como numa ponte. Claro que eu me animei para pular por elas, mas logo na primeira que eu coloquei o pé, levei um escorregão e minha padaria foi parar bem em cima de uma pedra verde de lodo.

Eu voltei para o ponto inicial desta parte da trilha várias vezes, à procura de alguma sinalização, e não encontrei absolutamente nada. Não consegui achar nenhum símbolo do Caminho, mas, ainda assim, de acordo com as instruções do livro-guia e do Google, eu estava na rota certa, eu teria que seguir pelo rio até chegar a uma ponte. A questão é que não havia nenhuma trilha que seguisse pelo rio. A solução mais certa — e mais excitante, claro — foi caminhar às margens do rio até que pudesse encontrar alguma rota.

A caminhada foi repleta de obstáculos, como troncos de árvores esparramados no chão, galhos secos, teias de aranha, rochedos e inclinações íngremes. Em um dado trecho, assim que coloquei os pés no chão, senti imediatamente que se tratava de um lamaçal escondido por galhos. Meu pé afundou, e meu impulso a seguir foi de fugir dali, mas sem perder o foco no rio. À medida que avancei, aquela SENSAÇÃO de fazer algo errado, ou seguindo por uma rota errada, voltou a bater forte. Eu já estava há um tempo imenso apenas às margens do rio, sem sinal de civilização por perto.

As aranhas estavam nestes rochedos; ainda não sei como não estrebuchei no rio.

Com um pouco mais de caminhada, a intuição mostrou que eu estava certo: o lado do rio no qual eu seguia iria terminar dentro de poucos metros. Era a hora de cruzar o Glencree. Às minhas costas, eu carregava uma mochila com, além de roupas e comida, meu laptop. Meu receio era cair no rio com mochila e tudo. Havia uma trilha de pedras pela qual seria perfeitamente possível atravessar as águas. Nessa primeira tentativa, pulei as pedras até chegar em uma última, que daria para finalmente cruzar o rio. No entanto, a distância entre mim e a rocha me intimidou.

Tive o impulso de pular. De volta, veio a sensação. Algum pensamento de cautela me trouxe o freio e eu olhei para o lado e vi que havia outra trilha, com pedras menores, que parecia ser mais segura. Voltei pelas pedras e fui em direção a essa nova trilha. Depois de pular as primeiras pedras, eis que as possíveis donas das teias nas margens da floresta apareceram. As aranhas estavam bem em cima de um rochedo com bastante lodo, úmido. Ainda não acreditei que poderia haver aranhas ali, mas o mais fascinante não foi o fato de haver aranhas, mas como elas se pareciam.

As aranhas eram incrivelmente lindas, com patas enormes e finas, esverdeadas, algo que nunca vi na minha vida. Tive o impulso de tirar uma foto, mas não quis encher o saco delas. Tomei cuidado para não pisar em cima das minhas novas amigas e as deixei em paz, alcançando, com segurança, a pedra seguinte, que era um pouco maior e por isso mais confiável. Nunca pensei que fosse admirar aranhas, mas aquelas aranhas, de patinhas fininhas e verdes, eram lindas, exóticas e não inspiraram medo.

Queria muito ter visto um dinossauro aqui, mas a vida é cheia de frustrações.

A chegada ao outro lado do rio foi uma vitória e me presenteou com uma trilha assustadora — uma das mais assustadoras de todo o caminho — com uma vegetação alta, à altura da cintura, que muito me inspirou uma das cenas de Parque dos Dinossauros 2, o Mundo Perdido.

Era uma sensação jurássica mesmo, parecia que a qualquer momento algum velociraptor iria saltar do matagal e me atacar. Ao meu redor, em todos os lados, apenas pinheiros e outras árvores. Nenhuma sombra de gente, de civilização. Um cenário que traz uma sensação de insegurança e pequenez. Você é um ser solitário e insignificante, diante da natureza selvagem, pouco tocada, que te cobre por todos os lados.

A árvore com as tripas pra fora.

A trilha ainda me aguardou o exotismo de uma árvore gigantesca que tinha o seu tronco aberto, por onde saíam raízes.

Parecia haver saído diretamente de um filme de terror um tanto escatológico, porque lembrava como alguém crucificado, com os intestinos pra fora.

Era grotesco, arrepiante, mas ainda assim muito prazeroso admirar a “feiura” de uma árvore assombrada.

Após essa visita, eis que me deparo, para meu alívio, mais um sinal com o menininho peregrino, a frente de uma ponte de madeira. Jogo salvo, de volta à civilização.

Os próximos trechos foram de caminhada com melhor sinalização. No meio do caminho não havia mais uma pedra, mas um caminhão carregado de imensos troncos de madeira. Olhar o interior desses troncos, com círculos harmônicos, paralelos, que mostravam a idade daquelas árvores era de uma beleza um tanto triste.

Árvores mortas para erguer cidades e nos manter vivos. O desmatamento ali parecia ser controlado, mas ainda assim era assustador ver uma quantidade tão absurda de madeira retirada daquela mata para ser empilhada em uma máquina de soltar gás carbônico.

A jornada prosseguiu por uma longa subida, em que eu fui cada vez mais me aprofundando na imensidão silenciosa da floresta. Quanto mais eu subia, mais eu olhava para trás e me permitia ver o mundo gigantesco onde eu estava submerso. A trilha seguia deliciosa, com outros caminhantes no meio da rota, alguns sozinhos, outros com companhia.

Acho que foram mais de 9 horas andando, mas são tantas paisagens diferentes que o cansaço não batia.

Após muita subida, uma chuvinha leve começou a cair. Eu me lembro que várias vezes adiei o The Wicklow Way por causa das chuvas, das previsões meteorológicas. Eu nunca tive o hábito de olhar previsões. Fazer isso na Irlanda é quase uma perda de tempo, dado que aqui o clima é maluco, com as quatro estações cruzando o céu em menos de 24 horas. Também não gosto de olhar a previsão do tempo porque sempre penso que vou ter que viver, de seguir vida adentro, independente de como possa estar o céu naquele dia. Eu vou ter que sobreviver, então, para que estar na ansiedade de checar o clima, como se a natureza estivesse dentro de nossa interferência?

Dito isto, a chuva, ao menos neste segundo dia, foi uma verdadeira bênção. Muito mais ajudou do que atrapalhou. Tornou a caminhada ainda mais saborosa. Afastou moscas, mosquitos. Deixou o clima suave, ainda mais ameno. As gotas da chuva eram minha companhia e eu as recebi sem reclamar, pelo contrário, abracei cada uma delas e as levei comigo, no meu casaco, na minha bolsa, no meu rosto.


Tá gostando? Tem mais! Vem comigo!

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