O Caminho de Wicklow: A Aventura (Parte 1)

Um registro leve, bem humorado e altamente pessoal de minhas andanças pelas mágicas montanhas silenciosas de Wicklow, um pedacinho da Irlanda

Esperei o vento vir na direção certa para cobrir minha calvície e tirar essa foto na qual tento um estilo aventureiro sensual.

“Com quem você vai?”

Ouvi essa pergunta umas 1000 vezes antes de tomar a decisão de fazer o primeiro hiking da minha vida. Uma experiência promissora, divisora de águas, que me ensinou um bocado de coisas em pouco tempo. Nada como a força da vivência na pele, do sentir que você está encaixado em um dado contexto de aprendizado do qual você não pode fugir de modo algum. Eu fui com a companhia que vai ter que me aguentar pelo resto da minha vida, inclusive com chulé: “Euzin”.

O Caminho de Wicklow é uma trilha no meio das montanhas de Wicklow, uma região interiorana pertinho de Dublin, capital da Irlanda. O caminho inteiro é feito em 7 dias, mas eu fiz a rota de 3 dias, que foi tempo suficiente para não ficar muito tempo fora do trabalho e conhecer a região onde se concentra a maior parte das paisagens montanhosas. O tempo no caminho é determinado pelo próprio viajante.

Sempre fui fascinado por aventura. Quando criança, o meu melhor amigo de infância me apresentou Tomb Raider, um game no qual você encarna a versão feminina do Indiana Jones, o maior arqueólogo de todos os tempos. A diferença de um para o outro, no entanto, é mais do que simplesmente uma questão de gênero. Tomb Raider é um jogo. Você vai passar horas e mais horas enfiado em locais hostis, longínquos, tendo apenas a si mesmo com quem contar. Indiana Jones é um filme, uma experiência muito mais rápida, sem desmerecer a força e magia da obra.

Seguir o Caminho de Wicklow é sentir um pouco na pele o que é visto no jogo. O desafio de estar fora de casa, sozinho, sem depender de mais ninguém, é um desafio e tanto, que exige de você todas as forças que existem em sua alma. Exige coragem, determinação e uma saudável dose de loucura, romantismo, fantasia. Você não aceita que a vida é apenas pagar contas, ir ao supermercado. Você quer algo que faça seu coração bater mais forte.

E quando esse algo vem carregado de sonhos, eu, um escritor de ficção, um poeta, um pisciano incurável, não tenha dúvida: meus olhos enchem de luz e meus ouvidos ficam cegos para o que possa acontecer de ruim. Ruim ou bom, a vida não para e te convida incessantemente ao despertar do conhecimento.

Não vou me detalhar aqui aos aspectos técnicos do Caminho. Há uma porrada de informações disponíveis na web para qualquer um que ficar curioso em fazer essa trilha. Aqui, vai um pouco da minha experiência, meu aprendizado, minhas meditações, durante o meu primeiro hiking, de muitos que virão. Acho que encontrei mais um sentido para a minha inteira vida.

(texto e fotos: Fausto Muniz)


Dia 1: a saída da cidade; sozinho, no meio do nada; a passagem secreta.

No dia da partida, deixei algumas coisas para resolver em cima da hora. Não tinha uma garrafa de água, nem roupas à prova d`água. Fui comprar tudo isso. O dia estava iluminado, mas com muitas nuvens. De última hora, da mesma forma, tomei uma decisão importante: não iria acampar. Irlanda é um país tranquilo, com pouquíssima criminalidade, ainda mais nos locais menos urbanizados.

A decisão de não acampar foi mais uma escolha para meu conforto e por inexperiência mesmo. Como eu nunca havia feito um hiking, achei melhor ficar acomodado apenas em hostels. Dos três dias planejados para a trilha, eu tinha acomodação para apenas dois. Não consegui hostel para o segundo dia, na região de Roundwood.

Tem certos momentos que você vai precisar simplesmente confiar que as coisas vão caminhar por si só. Por mais que você planeje, nem tudo estará sob seu controle, então, só resta entregar para Deus. Foi isso que eu fiz. Deixei para lá essa questão, arrumei o resto que tinha que arrumar, e larguei em casa a barraca e o saco de dormir. Fiquei aliviado de não ter que carregar essas coisas nas minhas costas. Esse alívio fez uma diferença enorme no conforto da caminhada.

Tudo certo comigo, vamos ao mundo. Antes de sair, fechei os olhos, pedi proteção. No Brasil, eu sempre tive esse hábito, antes de viajar. Independente de crença, fechar os olhos é uma prece, uma conexão com a própria alma. Fechar os olhos te coloca na escuridão do teu próprio ser, esse mundo desconhecido, que somente o percurso da vida mostra o que existe nele. Terminado esse momento, embarquei na aventura. Segui para a O’Connell Street e não demorou muito para subir na linha 16, que me deixaria perto do parque onde se inicia oficialmente a caminhada, partindo de Dublin.

Livro-guia, um passo a passo para cada dia do percurso; traz ainda indicações de hospedagens; ajuda muito, principalmente novatos, como eu.

A chegada ao local foi tranquila e os primeiros passos já me mostravam o que os próximos dias me aguardariam. Comecei a seguir os sinais no meio de uma trilha verde, deliciosa, relaxante, ainda no meio do parque. A figurinha do caminhante amarelo na madeira seria um guia valioso, um companheiro dessa jornada. Toda vez que eu via essa plaquinha com esse personagem eu dizia: JOGO SALVO (kkkk). Cada vez que eu encontrava esse menininho, era um alívio. Bobo eu, que não sabia que, posteriormente, esse menininho iria me abandonar e eu teria que me virar, sem guias, sem orientações externas, sem uma plaquinha lhe dizendo: você está no caminho certo. Continue!

Ao final dessa trilha, finalmente vi a primeira placa indicando: THE WICKLOW WAY. Vibrei. Começou.

O início desse caminho se dá saindo do estacionamento do parque. Precisei pegar uma rodovia, descer por ela. Vez em quando, a insegurança batia, e eu me via lendo o guia, um passo a passo para o caminho. Desci pela rodovia e logo encontrei mais uma placa que indicava a rota do caminho. Segui por ela.

Início oficial do The Wicklow Way

Acima de mim, o céu começava a se fechar. O céu estava absolutamente imprevisível, mas até então, firme, ensolarado. Segui por uma estradinha fofinha, até que as primeiras gotas de chuva começaram a engrossar. Deixei minha mochila no chão e procurei a roupa apropriada. Assim que encontrei essa roupa, mexi daqui, mexi dali, tentando desempacotar tudo, puxar o zíper, enfim, usar a roupa. Quando finalmente aprendia a colocar a capa cheia de frufru… adivinhou, né? Um solzão rasgou tudo quanto é nuvem, e junto com ele um calor escaldante. Lá vai eu tirar tudo de novo e colocar na bolsa outra vez.

A chuva voltou. Lá vai eu pegar a capa e se vestir. A chuva passou. Dei uma risada alta, sozinho mesmo, que espantou tudo quanto é passarinho. Deixei pra lá. Tinha que seguir. Tinha que continuar, manter o passo. As horas estavam se passando. Deixei a chuva, o sol, o vento, qualquer coisa, pra lá. Apenas segui.

Dublin praticamente não tem ladeiras, é uma cidade com terreno quase todo plano, assim como grande parte do Recife. Mas fazer uma trilha nas montanhas significa subir e descer ladeiras quase o tempo todo. E foi assim que essa primeira parte se deu: uma ladeira sem fim, até chegar em uma área aberta, sem árvores, sem obstáculos.

O esforço compensou, com uma vista deslumbrante, um paraíso perdido. Era apenas um aperitivo do que me aguardava nas próximas horas: paisagens que tiram o fôlego, que te conectam à natureza com muito mais intensidade e profundidade.

À medida que eu caminhava pelas montanhas, num percurso saboroso, uma trilha com muitos obstáculos, houve um momento em que eu, finalmente, percebi: estava sozinho, no meio do nada, longe de tudo. Eu estava sozinho e essa sensação me deixou eufórico. Era como se, de fato, eu estivesse em uma aventura. Em nenhum momento eu senti medo ou qualquer insegurança.

Game saved.

O risco desperta uma energia dentro de você que você desconhece. O perigo te coloca numa sensação que mistura excitação com adrenalina. Era isso o que eu sentia. Era uma espécie de momento poético, uma solidão que faz você não acreditar no que está fazendo. Você não acredita que deixou uma série de medos e certezas para trás e se lançou numa situação de risco, ainda que controlado.

Você pode fazer um hiking com outras pessoas, um grupo legal, e, a depender do nível de dificuldade da prática, a sua experiência e outros fatores, pode ser a melhor alternativa. O Caminho de Wicklow, no entanto, é uma caminhada leve e segura, que não exige muitas habilidades técnicas para sua execução. E por isso, fazê-lo não traz maiores riscos. Fazê-lo sozinho é uma experiência sensorial única e eu vou explicar isso, na prática, nos próximos momentos.

Tudo é silêncio. E o silêncio é tudo o que você precisa.

Entre subidas e descidas, conheci um senhor, bastante comunicativo (falei bastante em inglês, e esse foi outro fator muito bom para o desenvolvimento da confiança no ato de se comunicar). Ele era professor de geografia e, por incrível que pareça, conhecia bem o Brasil, ainda mais a região nordeste, quando eu citei Recife. Ele não estava fazendo o Caminho, estava apenas praticando uma caminhada pela região.

Foi ele que tirou a minha primeira foto comigo na paisagem, pelas subidas da montanha. Ele conversou sobre a Irlanda, as paisagens, as pessoas, e foi uma troca bastante positiva, rica. Não existe idade. Quando você se conecta com pessoas diferentes, o desconhecido não existe e sua bolha de impressões se rompe. Seus preconceitos caem.

Momentos depois, moscas começaram a surgir por todos os lados, atacando em grupo. Foi um tanto desesperador. Eu não estava usando repelente, não me preocupei com isso, e a maneira como eu soube de me defender desse incômodo foi usando o guia físico, de papel, para espantar essas chatas, que ficam em torno de sua cabeça, de um lado para o outro. Houve um momento em que eu corri, como se estivesse correndo de um ataque de abelhas.

Muito verde pra limpar a mente (mas o que eu queria mesmo era achar a bruxa de blair)

No início, há um certo choque, afinal, aqui na Irlanda, praticamente não há mosquitos, e a gente acaba se desacostumando com a presença de animais ao redor. Países tropicais são cheios de bichos e de uma natureza exuberante, selvagem. A gente se habitua a essa situação, mas a Irlanda é de clima temperado e a presença de animais é muito rara.

Quase ao final do primeiro dia, exausto, com mais de nove horas de caminhada, encontrei um beco, por entre as árvores, que parecia sem saída. A placa indicava aquele local, mas, em um determinado trecho, não havia mais para onde ir, aparentemente. Eu voltei, fiz o caminho de volta, mas o Google indicava que o hostel seguia exatamente naquela direção onde eu estava andando.

O local era um tanto esquisito, praticamente fechado, com árvores e matagais um ao lado do outro. A sensação era bem medonha.

No solo, círculos de pedras indicavam ser um local apropriado para acender fogueiras.

A sensação de estar perdido volta e meia aparecia, mas o desespero nunca me cegou. Cedo ou tarde, a solução vai aparecer e você acaba aprendendo a lidar com isso. E assim aconteceu: no final desse túnel, aparentemente sem saída, encontrei uma brecha por entre as árvores que seguia para um caminho escuro, fechado, na mata densa, uma passagem “quase” secreta. Adentrei por essa “porta” e me deparei com uma descida repleta de obstáculos. A trilha, porém, estava lá, muito bem sinalizada, com estepes de madeira e pregos virados, um tipo de estrutura ideal para manter a firmeza e dar mais segurança ao hiker.

Knockree Hostel (só o chuveiro que era ruim, uma mijadinha de água)

O final do meu primeiro dia, a primeira fase do meu videogame, estava no Knockree International Youth Hostel. Não acreditei que havia chegado ali. O hostel estava encravado bem no meio das montanhas, ao lado de um vale de beleza extraordinária. Passei de fase e o game prosseguiria no dia seguinte, depois de um sono restaurador.


CONTINUA… (to be continued…)

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