Os grilos e as águas

E os grilos voavam por entre os galhos da floresta. O cricrilado deles era o som da paz nas folhas verdes, que aos poucos deixavam de ser verdes, para serem apenas sombras. Os grilos cantavam entre os cantos da selva que sumia, sumia.

A água invadia, desvairada, como se não reconhecesse seus lagos, lagoas, rios e riachos. A água se voltou contra si, rechaçou suas irmãs, que pairavam na contemplação das estrelas e dos sóis.

E derrubavam tudo, as águas, como se houvessem apagado de suas memórias as veias e artérias de onde surgiram, no passado, junto ao mundo, à vida. Os grilos voavam acima das coisas da mata. Mas suas asas eram fraquinhas, fraquinhas, não tinham ímpeto de subir, sair, rumar, emigrar.

Eles corriam pelo vento, furando teias de aranha, os mais fortes, e cricrilirando, cricrilarando, cricrilejando, como cantores de uma sinfonia abafada pelos silêncios sagrados e assombrosos da floresta noturna. Pra cima, pra baixo, de um lado para o outro, eles fugiam, com o vendaval que volta e meia ameaçava desabar sobre a mata que ia sendo matada.

O vendaval não era dos céus torrenciais: belas tormentas que caíam para derrubar tudo quanto era bicho, pra depois de um tempo a vida renascer mais forte e viril. A vida renasceria, com essas tempestades violentas e cheias de cólera dos deuses.

Mas essas novas tormentas não viriam de cima. Viriam das mãos de gentes sem lendas, sem mitos, sem natureza dentro d’alma. Das mãos que faziam cores e poemas, também viriam as enxadas impiedosas, ou mesmo as águas que encharcavam a floresta, entupindo de água suas ventosas.

Dessas mãos que usam a faca para cortar a carne, viria a faca para cortar carnes de madeira que ameaçavam o projeto de futuro do mundo por além das florestas profundas, cheias de mistérios. Contra o fogo dessas mãos, não havia curupiras, comadres florzinhas, sacis e cucas que impedissem suas ações.

A floresta estava amedrontada. A floresta estava acuada, presa, tentava se esconder. Mas quando mais fugia, mais o fogo úmido lhe consumia. Consumia… consumia… consumia…

E os grilinhos continuavam subindo, fazendo uso de suas asas para ir mais alto do que as águas que enchiam os tanques dos matagais, que aos poucos foram virando pântanos, que aos poucos foram virando bacias, que aos poucos foram virando rios enormes, que aos poucos foram virando oceanos, que aos poucos foram virando depósitos.

E os grilinhos, com as asas cansadas, procuraram os galhos para descansar. Procuraram ao menos teias de aranhas para se grudar e não cair. Procuraram um pezinho de qualquer coisa para se segurar. As asas foram se cansando. As asas se cansaram. E eles se viram no reflexo das águas. E começaram a tomar banho, como os sapos faziam. Como os outros faziam. Mas eles não sabiam tomar banho.

E suas asinhas, já cansadas, pararam de se mexer.

Cricriliraram. Cricrilararam. Cricrile… Cricri. Cri.

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