O elogio certo

Existem diversas maneiras de se elogiar. Geralmente, um elogio vem com um “que” + um adjetivo. Que chique; que sofisticado; que arretado; que maravilha. Uau. Cada qual tem seu qual de aparecer na hora certa. Mas será mesmo?

Ela tinha um jeito de elogiar que, digamos, gerava olhares esquerdos. E ela elogiava, pelo menos era o que parecia, com tanta energia. Todos os dentes apareciam. Os olhos se apertavam, num sorriso mais do que franco, sincero. Não havia como mentir desse jeito. Qualquer detector de mentiras ficaria com a tela verde, de verdade, diante da voz da mulher naquele encontro de escritores. A plateia, culta, não muito afeita a alegria ou gargalhadas, fazia a pose de bem comportada. Ela… bem, ela era comportada. O que não eram comportados eram os seus elogiosos termos quando algum escritor, por quem tinha admiração, soltava suas pérolas repletas de erudição e beleza intelectual.

– Não há segredo para se escrever bem. O segredo é escrever, escrever, escrever. Ler, ler, ler. É um processo complexo, muitas vezes vagaroso, monótono, entediante. As palavras vão fugir de você e você vai atrás delas, com ódio e amor, numa relação complicada. Vocês decidiram se casar com as palavras e essa relação tem altos e baixos.

Ai que delícia! Delícia!

Ninguém olhava pra ela. Fingiam que não haviam ouvido nada.

– A arte de escrever bem é uma arte cheia de segredos, que o próprio escritor é quem irá decifrar ao longo do tempo, do trabalho diário, artesanal, com a obra de arte que ele está construindo…

Que gostoso! Ai delícia!

A mulher olhava para os lados a cada elogio. Compartilhava de sua alegria com uma plateia cheia de gente chata, azeda. Alguns se incomodavam com aquelas palavras, safadas, para elogiar uma ocasião de tamanha presença espiritual, filosófica. Cabeça.

– O escritor tem que ler Platão, Aristóteles, Machado, Batman, Maurício de Souza, bula de remédio, anedota safada, anedota infantil. Tem que enriquecer seu repertório todo dia.

Muito gostoso! Que delícia!

Parecia que a mulher estava prestes a gozar. Um orgasmo cabeça. A cada nova tirada cult, um elogio sem o menor pudor, entre os dentes de um sorriso prestes a engolir ambas as orelhas. Ao final, ela comprou o livro lançado naquela noite. Abraçou um dos escritores. Era um compadre seu. E saiu do salão com a alegria não contagiante de sempre, folheando as páginas da obra gostosa que havia adquirido.

Acho que ela finalmente havia matado a fome. Um tesão só.

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